sábado, 23 de setembro de 2017

E o Partido da Guerra controlou a Casa Branca


 
 
 
 
 
 
 
 
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Narrativa de uma captura: como Donald Trump abandonou as promessas de acabar com as guerras inúteis dos EUA — e adotou uma postura ainda mais agressiva que seus antecessores
Por Serge Halimi, no Le Monde Diplomatique francês | Tradução:Inês Castilho
Bastaram alguns meses para que os Estados Unidos se retirassem do acordo internacional de Paris sobre as mudanças climáticas, adotassem novas sanções econômicas contra a Rússia, invertessema dinâmica de normalização das relações diplomáticas com Cuba, anunciassem sua intenção de denunciar o acordo nuclear com o Irã, dirigissem uma advertência ao Paquistão, ameaçassem a Venezuela com uma intervenção militar e se declarassem preparados para atacar a Coreia do Norte “com um fogo e uma ira que jamais se viram antes neste mundo”. Desde que a Casa Branca mudou de inquilino em 20 de junho passado, Washington somente melhorou suas relações com as Filipinas, o Egito, a Arábia Saudita e Israel.
A responsabilidade de Donald Trump nessa escalada não é exclusiva. Os neoconservadores eleitos por seu partido, os democratas e os meios de comunicação o ovacionaram quando, durante o outono passado, ordenou a realização de manobras militares na Ásia e mandou lançar 59 mísseis contra uma base aérea na Síria (1). Pelo contrário, ele foi impedido de atuar quando explorou as possibilidades de uma aproximação com Moscou – e inclusive viu-se obrigado a promulgar um novo pacote de sanções estadonudenses contra a Russia. Definitivamente, o ponto de equilíbrio da política externa dos Estados Unidos resulta cada dia mais da soma das fobias republicanas (Irã, Cuba, Venezuela), amiúde compartilhadas pela maioria dos democratas, e das aversões democratas (Rússia, Síria), referendadas pela maioria dos republicanos. Se existe um partido de paz em Washington, não é detectável por enquanto.
Contudo, o debate presidencial do ano passado sugeria que o eleitorado estadunidense pretendia romper com a tendência imperial dos Estados Unidos (2). Em primeiro lugar, Trump não fez campanha sobre temas de política externa. Mas quando abordou esses assuntos, foi para sugerir uma linha de conduta em grande medida oposta à do establishment de Washington (militares, especialistas, think tanks, revistas especializadas) e à que segue atualmente. Ao prometer subordinar as considerações geopolíticas aos interesses econômicos dos Estados Unidos, dirigia-se ao mesmo tempo aos partidários de um nacionalismo econômico (“America First”), numerosos nos estados industrialmente devastados, e aos que se convenceram dos méritos do realismo, depois de quinze anos (3) ininterruptos de guerra, com a deterioração progressiva da situação ou o caos generalizado (no Afeganistão, Iraque e Líbia). “Nossa situação estaria melhor se não estivéssemos nos ocupando do Oriente Médio há quinze anos” , concluía Trump em abril de 2016, convencido de que a “arrogância” dos Estados Unidos havia provocado “um desastre atrás do outro” e “custado a vida de milhares de cidadãos estadunidenses e bilhões de dólares”.
Esse diagnóstico, inesperado por parte de um candidato republicano, coindicia com o sentimento da fração mais progressista do Partido Democrata. Peggy Noonan, que escreveu os discursos mais destacados de Ronald Reagan e de seu sucessor imediato, Georges H. Bush, ressaltava então: “Em matéria de política exterior, [Trump] posicionou-se à esquerda de Hillary Clinton. Ela é belicista, deseja com demasiado afinco utilizar a força armada e lhe falta discernimento. Será a primeira vez na história moderna que um candidato republicano às eleições presidenciais se posicionará à esquerda de sua rival democrata, o que fará com que a situação se torne interessante”. (4)
Interessante, a situação ainda é — mas não exatamente como previu Noonan. Enquanto “a esquerda” postula que a paz deriva não da intimidação das demais nações, mas de relações mas equitativas entre elas, Trump, totalmente indiferente ao sentimento da opinião pública mundial, opera como um embaixador em busca do melhor “negócio” (“deal”) para ele e seus eleitores. Assim, o problema das alianças militares não é tanto, de seu ponto de vista, que ameacem ampliar confitos, em vez de dissuadir as agressões, mas que custem muito dinheiro aos estadunidenses. E que, forçados a pagar a conta, estes vejam como seu país se converte em “uma nação do Terceiro Mundo”. “A OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) está obsoleta – repetia Trump em 2 de abril de 2016, durante um comício. Defendemos o Japão, a Alemanha, e só nos pagam uma fração do que nos custa. A Arábia Saudita cairia se saíssemos de lá. É preciso mostrar-se disposto a abandonar a mesa; se não, nunca se obterá um bom acordo”.
O presidente dos Estados Unidos esperava alcançar esse “bom acordo” com Moscou. Uma nova postura teria revertido a deterioração das relações entre as duas potências, favorecendo uma aliança contra o Estado Islâmico (ISIS) e reconhecendo a importância da Ucrânia para a segurança russa. A atual paranoia estadunidense relativa a tudo o que se relacione com o Kremlin leva a esquecer que em 2016, depois da anexação da Crimeia e a intervenção direta de Moscou na Síria, Barack Obama também relativizava o perigo representado pela Rússia. Segundo Obama, as intervenções russas na Ucrânia e no Oriente Médio eram apenas improvisações, “sinais de debilidade de Estados-clientes a ponto de escapar dele”. (5)
Ele acrescentava: “O russos não podem nos mudar ou enfraquecer de maneira significativa. É um país pequeno, um país fraco, e sua economia não produz nada que outros queiram comprar além de petróleo, gás e armas”. O que então temia de seu homólogo russo era sobreturdo… a simpatia que inspirava em Trump e seus partidários: “37% dos eleitores republicanos aprovam Vladimir Putin, o ex-chefe da KGB. Ronald Reagan deve estar se revolvendo na tumba!”. (6)
Desde janeiro de 2017, o sono eterno de Reagan recuperou sua tranquilidade. “Os presidentes chegam e se vão, mas a política não muda”, concluía Putin (7). Algum dia, os historiadores estudarão essas semanas durante as quais convergiram os esforços dos serviços de inteligência norte-americanos, dos dirigentes do setor favorável a Hillary, no Partido Democrata, da maioria dos representantes eleitos republicanos e dos meios de comunicação hostis a Trump. Seu projeto comum? Impedir qualquer aliança entre Moscou e Washington.
Os motivos de cada um eram diferentes. Os serviços de inteligência e alguns elementos do Pentágono temiam que uma aproximação entre Trump e Putin os privasse de um inimigo apresentável, uma vez destruído o poder militar do ISIS. Os dirigentes democratas favoráveis a Hillary estavam impacientes para transferir sua inesperada derrota a outros : o “hackeamento” dos dados do Partido Democrata, imputado a Moscou, servia. Os neoconservadores “que haviam promovido a guerra do Iraque, que detestavam Putin e que consideravam que a segurança de Israel não era negociável” (8) escandalizaram-se diante das tentações neo-isolacionistas de Trump.
Finalmente, os meios de comunicação, em particular o New York Timese o Washington Post, sonhavam com um novo “caso Watergate”. Não ignoravam que seus leitores – burgueses, urbanos, com formação – detestavam apaixonadamente o presidente eleito, desprezavam sua vulgaridade, seus tropismos de extrema direita, sua violência, sua incultura (9). E, como consequência, buscariam qualquer informação ou rumor que pudesse provocar sua destituição ou sua demissão forçada. Um pouco como em Assassinado do Expresso Oriente, o romance de Agatha Christie, cada um tinha, definitivamente, suas razões para golpear o mesmo alvo.
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Pouco mais de uma semana antes que Trump assumisse suas funções, o jornalista e advogado Glenn Greenwald – a quem devemos a publicação das revelações de Edward Snowden sobre os programas de vigilância massiva da Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês) – alertava sobre o transcurso dos acontecimentos. Observava que os meios de comunicação norte-americanos haviam se tornado “a ferramenta mais valiosa” dos serviços de InteligênciaAo mesmo tempo, parecia-lhe que os democratas, “ainda chocados por um fracasso eleitoral tão inesperado como traumatizante”, “haviam perdido a razão e aderiam a qualquer avaliação, elogiavam qualquer tática, aliavam-se a qualquer canalha ” (10).
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Compreende-se por que o “hackeamento” dos dados do Partido Democrata, atribuído pelos serviços de inteligência norte-americanos à Rússia, enfeitiça o Partido Democrata e a imprensa. Dois pássaros num só tiro: ele permite deslegitimar a eleição de Trump e o impede de promover qualquer tipo de aproximação com Moscou. Mas não é extravagante que os EUA ofendam-se diante da ingerência de uma potência estrangeira nos assuntos internos de outro Estado?
E quem se lembra de que não foi o Kremlin quem espionou as conversas telefônicas de Angela Merkel, mas sim a Casa Branca de Obama? Quando o ex-diretor da CIA James Clapper formulou algumas perguntas a um representante – republicano – da Carolina do Norte, Thom Tillis, em janeiro, este rompeu tal silencio. Recordou que os Estados Unidos “haviam se envolvido em 81 eleições diferentes, desde a Segunda Guerra Mundial”. E prosseguiu: “Isso não inclui os golpes de Estado nem as ‘mudanças de regime’, através das quais temos pretendido mudar a situação a nosso favor. Já a Rússia atuou da mesma maneira em 36 ocasiões”. Melhor não esperar que um ponto de vista semelhante atenue os ataques do The New York Times contra as desonestidades de Moscou.
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Hoje, o diário novaiorquino está na vanguarda da preparação psicológica da população para um conflito contra a Rússia. Contra dinâmica semelhante apenas a resistência se impõe. À direita, o vice-presidente Mike Pence mencionava na Estônia o “espectro da agressão” russa e, mais tarde, animava a Geórgia a unir-se à OTAN, para finalmente louvar Montenegro, que acaba de somar-se à aliança militar. Longe de preocupar-se com essa avalanche de gestos provocadores, que provocam um aumento da tensão entre as duas grandes potências (sanções comerciais contra Moscou, expulsão de diplomatas estadunidenses por parte da Rússia), o New York Times brinca com fogo. Gabava-se, em 2 de agosto, da “reafirmação do compromisso norte-americano de defender as nações democráticas contra os países que as ameaçariam”. Em seguida lamentava que o sentimento de Pence “não fosse experimentado e comemorado igualmente pelo homem para o qual trabalhava na Casa Branca”. Mas a essa altura pouco importa, dizendo a verdade, o que Trump continue sentindo. O presidente dos Estados Unidos já não está em condições de imprimir sua vontade nesse assunto.
Em setembro, manobras militares russas sem precedentes desde a queda do muro de Berlim deviam mobilizar cerca de 100 mil soldados, marines e aviadores nas imediações da Ucrânia e dos países bálticos. Isso ofereceeu material ao New York Times para um artigo de capa que lembra a campanha de pânico que o jornal alimentou em 2002-2003 contra as supostas “armas de destruição em massa” do Iraque. Não faltava nem o coronel estadunidense que anunciava de modo sombrio: “A cada manhã, quando nos despertamos, sabemos quem é a ameaça”, nem o inventário do arsenal russo, nem a menção de veículos de combate da OTAN que, entre Alemanha e Bulgária, “detêm-se para deixar que as crianças subam a bordo”… Mas o mais delicioso neste modelo de jornalismo (no mesmo barco que o Exército) foi seguramente o momento em que, para localizar os exercícios de Moscou na Rússia e Bielorrússia, o New York Times recorreu à expressão “na periferia da OTAN” (11)…
De agora em diante, qualquer tentativa de apaziguamento com Moscou que venha de Paris ou de Berlim será julgado como “favorável aos Acordos de Munique”, por um establishment neoconservador que retomou o controle em Washington; e criticado rapidamente pela quase totalidade dos meios de comunicação norte-americanos.
Saberão os Estados europeus deter a engrenagem militar que se desenha? Têm vontade de fazê-lo? A crise coreana deveria recordar-lhes que Washington mostra-se indiferente ante os pratos quebrados longe de seu território. O senador republicano Lindsey Graham, preocupado em conferir credibilidade à ameaça nuclear do presidente Trump no Extremo Oriente , deixou escapar em 1º de agosto que “se milhares de pessoas morrem, morrerão lá, não aqui”.  Acrescentou que o presidente dos Estados Unidos compartilhava de seu sentimento: ”Ele me disse”.
Referências
(1) Ver Michael Klare, “La transformación de Donald Trump en jefe guerrero”, Le Monde diplomatique em espanhol, maio de 2017.
(2) Ver Benoît Bréville, “Estados Unidos está cansado del mundo”, Le Monde diplomatique em espanhol, maio de 2016.
(3) “Today”, NBC, 21 de abril de 2016.
(4) Peggy Noonan, “Simple patriotism trumps ideology”, The Wall Street Journal, Nova York, 28 de abril de 2016.
(5) “The Obama Doctrine”, entrevista com Jeffrey Goldberg, The Atlantic, Boston, abril de 2016.
(6) Coletiva de imprensa de 16 de dezembro de 2016.
(7) Le Figaro, París, 31 de mayo de 2017.
(8) Michael Crowley, “GOP hawks declare war on Trump”, Politico, Arlington, 2 de março de 2016.
(9) Ver “El desconcierto de la ‘intelligentsia’ estadounidense”, Le Monde diplomatique em espanhol, dezembro de 2016.
(10) Fox News, 12 de janeiro de 2017. No dia anterior, Greenwald havia detalhado suas declarações em “The deep state goes to war with president-elect, using unverified claims, as Democrats cheer”, The Intercept, 11 de janeiro de 2017.
(11) Eric Schmitt, “US troops train in Eastern Europe to echoes of the cold war”, The New York Times, 6 de agosto de 2017.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Mija nas calças Otário ...vai amarelar. ..kd o racista? É vc? 
Diz ai....vc vai é levar pau seu nazista otário

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Para uma história do anticomunismo no Brasil






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“Fake News”. Falso moralismo político. Busca da “democracia” por meio de golpes. Como as táticas atuais da propaganda de direita requentam as dos anos 1960
Por Eduardo Migowski
“O Brasil precisa de você” e “A Máquina Comunista” são dois documentários brasileiros de teor antissocialista. A mensagem de ambos é praticamente a mesma: “há um perigo iminente que precisa ser extirpado. Caso contrário, o Brasil caminhará para uma ditadura totalitária e sanguinária.” A corrupção, a desordem e a crise econômica e institucional seriam as provas inequívocas da ameaça que ronda a sociedade.
No primeiro caso, “O Brasil precisa de você”, o narrador faz um convite direto ao telespectador, convocando-o para participar de forma ativa na sociedade. A missão proposta seria a conformação de uma “nova democracia” no Brasil.
Mas o que seria exatamente essa “nova democracia”? O documentário não explica. Porém, em outro momento, fica claro que o que está sendo sugerido não é exatamente a ampliação da representação popular. É um “projeto civilizacional”. Seria necessário levar a democracia a quem não a “conhece”: “um novo conceito de democracia precisa ser levado aos estudantes, aos operários e aos homens do campo”.
Tratava-se, portanto, de uma cruzada para “esclarecer” grupos específicos e impedir que tais pessoas fossem vítimas de “ideologias exógenas”, perigosas. “Muitos estão de braços cruzados, esquecidos que a democracia não pode ser defendida por comodistas”, lembra a voz grave do narrador.
O perigo, obviamente, é o comunismo. Apresentado como o projeto totalitário sucessor do nazismo. Essa conclusão é recheada com imagens dos mortos, cercas de arame farpado e pessoas famintas. A antítese do que seria a liberdade liberal.
No segundo exemplo, “A Máquina Comunista”, a narrativa é semelhante. O documentário inicia com a fala de um sujeito, Ricardo Gomes (apresentado como empresário e advogado), afirmando que o projeto marxista é inverter a classe exploradora. E, para isso, “eles estariam tomando o Estado por dentro”. E o empresário alerta: “espero que ainda não tenhamos passado pelo point of no return, do estado de coisas além do qual é impossível voltar”.
A duas montagens cinematográficas são produzidas de modo a dar um recado ao telespectador. Mas quem seria essa pessoa? Certamente não é um indivíduo qualquer. É o sujeito que precisa civilizar o homem do campo, no primeiro caso; ou aquele que teme uma opressão dos de baixo, no segundo.
Se o interlocutor não é o operário, não é o homem do campo, restariam apenas as classes média e alta. O VOCÊ, do título do primeiro documentário, é absolutamente o mesmo VOCÊ da capa da Veja, que alertava sobre os perigos de expandir os direitos trabalhistas. O restante: “ELES”, o outro, as classes perigosas, que, como lembra Ricardo Gomes, querem nos explorar do mesmo modo que nós os exploramos. Em suma, é a empregada doméstica que, ao ter direitos, assusta VOCÊ com a possibilidade de um dia precisar lavar louça.170805-Veja
Há, porém, um detalhe que estava sendo omitido. Esses dois exemplos, apesar das semelhanças, não são contemporâneos. Não foram feitos pela Editora Abril, pela Rede Globo ou por qualquer órgão tradicional da imprensa. Muito pelo contrário, há mais de cinquenta anos separando a primeira película, produzida pelo IPES, órgão criado em 1962 por empresários para financiar a propaganda anticomunista; do segundo caso, retirado de uma de uma série de cinco documentários, lançados ano passado, num evento intitulado “Brasil Paralelo”.
Segundo os organizadores, esse “congresso virtual” foi realizado por jovens cansados de “ouvir sempre o mesmo lado de história”. Eles seriam os pioneiros de uma revolução intelectual que iria devolver a “verdade sobre o nosso povo”. Escondida pelos professores e pela mídia, “infestadas de esquerdistas”. “‘O Brasil Paralelo’ se propõe a trazer outra versão da história do Brasil. Após muito trabalho. Noites sem dormir. Viagens exaustivas. Colocamos dinheiro do nosso próprio bolso. Assumimos o risco.”
brasilparalelo
Anúncio do documentário Brasil Paralelo
O depoimento é comovente. Alguns jovens, cansados de ser manipulados, recebem uma revelação e resolvem sair numa empreitada arriscada. Trabalhando duro e desembolsando uma enorme quantia em dinheiro, sem sequer saberem se haveria retorno. Tudo em nome do conhecimento. A impressão é que, mais de 50 anos depois, esses rapazes ouviram a convocação do IPES e colocaram a “mão na massa” para construir “a nova democracia”.
O depoimento, porém, é tão cativante quanto irreal. O projeto tem mais de 123 horas de entrevistas com “especialistas” de todo o Brasil. Os cinco documentários foram produzidos de forma profissional, com imagem e edição de alta qualidade. Só para ter uma ideia, nenhuma universidade pública brasileira teria dinheiro para fazer algo dessa magnitude. Certamente, a aventura dos garotos custou alguns milhões. De onde veio tanto dinheiro? O que estaria por trás da sublime iluminação intelectual desses jovens?
Esse não é um caso isolado. Movimentos como o MBL já possuem escritório próprio, militantes profissionais, programas de notícias e entrevistas no Youtube. Organizaram manifestações em que cada trio elétrico foi alugado por cerca de 30 mil reais. Segundo os responsáveis pelo MBL, também formado por “garotos iluminados”, os gastos são financiados com venda de camisetas, chaveiros, broches e doações. Difícil de acreditar.
Quem estaria fomentando esse discurso? Bem, nesse caso, seria preciso uma ajudinha do passado. Conhecemos melhor a história dos seus avós, IPES e IBAD, do que dessas novas ramificações.
A história é importante, pois nos dá uma perspectiva temporal. Assim, evita certas manipulações discursivas. O documentário do IPES convoca a “sociedade” para levar um novo conceito de democracia ao “homem ingênuo”. Hoje sabemos que essa nova democracia representou, na prática, 21 anos de ditadura militar.
No fim, as vítimas foram as mesmas pessoas mobilizadas contra um perigo imaginário e em nome de uma democracia que ninguém conseguia definir ou explicar. VOCÊ também pagou o pato.
A Máquina de Propaganda Anticomunista
O que estamos chamando de “macarthismo brasileiro”, a grosso modo, começa em 1945. Após um duplo movimento: a democratização e o início da Guerra Fria. (Como este texto pretende ser curto, não vou abordar a propaganda anticomunista anterior à Guerra Fria).
Há também um importante deslocamento na esfera política/ideológica. Ao longo da década de 1930, o nacionalismo estava associado à direita política. Tanto o varguismo quanto o integralismo tinham como um dos seus principais motes a luta contra o “comunismo internacionalista”. No pós-guerra — com a vitória dos aliados e o renascimento do liberalismo, de um lado; e com a configuração de um modelo de desenvolvimentismo latino-americano e do trabalhismo, de outro —, há uma inversão. Essa duas variáveis irão promover a rearticulação do discurso ideológico. Doravante, o internacionalismo se identificará com a direita e o nacionalismo com a esquerda do espectro político.
A política partidária passou a ser rivalizada por dois projetos de país. De um lado, o nacionalista trabalhista, que defendia um crescimento autônomo e com distribuição de renda. O principal partido a representar tais anseios era o PTB. Do outro, estavam os liberais, que viam o mercado como o agente do crescimento e do progresso. A UDN era a trincheira institucional desse pensamento. O PSD, partido de centro e mais pragmático, era o fiel da balança entre esses projetos rivais.170808-DizerNão2
A UDN tinha dinheiro, muito influência na mídia e uma base social sólida. Porém, convivia com um dilema. O partido era visto como elitista. Antipovo. Seu eleitorado era o VOCÊ da propaganda. Não se elege um presidente apenas apelando para uma classe social. O discurso liberal tinha pouca aceitação entre os trabalhadores, pois estes entendiam que a CLT era o que os protegia das oscilações do mercado e das arbitrariedades dos mais poderosos. Como, então, defender o liberalismo e ao mesmo tempo ser popular? Tarefa difícil. Nas eleições de 1945, por exemplo, após uma fala infeliz do candidato Brigadeiro Eduardo Gomes (UDN), o PTB lançou a campanha: “marmiteiro” não vota em “grã-fino”. Referência ao elitismo do militar, que havia dito num comício que desprezava o voto dos getulistas, uma “malta de desocupados”.
Na impossibilidade do liberalismo seduzir grande parte da opinião pública, num país tão desigual quanto o Brasil, a estratégia empregada pela direita pode ser representada por um tripé. Primeiro, houve um apego à moralidade. Os jornais manipulavam de modo seletivo os casos de corrupção, com o objetivo a deslegitimar certas agendas. Um exemplo, que voltou a ser lembrado recentemente, foi o apartamento em Ipanema, na Avenida Vieira Soto, que os jornais acusaram Juscelino Kubitschek de ser o proprietário e de ter colocado no nome de um amigo para ocultar esse patrimônio.
Por que discutir sobre a importância estratégica da Petrobrás? Melhor acusá-la de balcão de negócios. As histórias dos escândalos de corrupção acompanham de forma impressionante a estruturação de um projeto nacional autônomo. Além do já mencionado Juscelino Kubitschek, Getúlio Vargas e João Goulart também sofreram com o cerco moralista. A oposição, diziam, não passaria de populistas demagogos, que querem comprar o apoio das camadas desfavorecidas com benesses quiméricas. O objetivo deles, contudo, seria se perpetuar no poder e usá-lo em benefício próprio.
Ora, se um pequeno grupo “compra” a maior parte da população “ignorante”, incapaz de decidir por conta própria, não há democracia. Essa era a lógica subjacente ao chamado do IPES direcionado aos “homens esclarecidos”.
Mas qual seria exatamente o perigo? Se ele não existia no mundo concreto, precisaria ser criado no imaginário. Vamos, então, para a segunda perna do nosso tripé. A retórica alarmista. O estímulo do medo. Materializada na propaganda anticomunista, que é o foco principal do presente artigo.
O historiador Geraldo Cantarino, no livro Segredos da Propaganda Anticomunista, compilou uma série de telegramas altamente secretos sobre a ação do Information Research Departament (IRD). O IRD era a unidade secreta do Ministério das Relações Exteriores britânico, responsável pela propaganda antissoviética no Brasil. Todos os documentos apresentados abaixo sobre o IRD, foram retirados deste livro.
Segundo os documentos, as informações divulgadas pelo órgão não poderiam ser percebidas pela população como propaganda, para não perderem a eficácia. A estratégia adotada seria a de “cavar e empacotar”. Ou seja, seriam selecionadas notícias negativas para serem distribuídas pela imprensa mundial. Em outros casos também seriam plantadas na imprensa informações falsas. “O principal papel desempenhado pelo IRD foi, então, o de disseminar a propaganda cinza e sem determinar a origem, com o objetivo de atrair a atenção ou confundir o público leigo.” (Geraldo Cantarino).
Essa estratégia escondia os laços entre empresários brasileiros e as agências internacionais de inteligência. Um cidadão lia uma reportagem fabricada pelo IRD, digamos, no jornal O Globo e não sabia da sua procedência e nem da veracidade dos dados apresentados. Como a agência abastecia praticamente toda a imprensa, a mesma narrativa era encontrada no Jornal do Brasil ou na Folha de São Paulo, apresentando os mesmos dados. Assim, a “propaganda cinza” ia sendo massificada, modelando o imaginário anticomunista. “A capacidade da CIA e da IRD de disfarçar seu apoio financeiro a diversas atividades por muitos anos foi decisiva para o sucesso da propaganda ocidental, sendo que grande parte dela não era reconhecida como propaganda.” (Geraldo Coutinho).170808-DizerNão4
Entre os parceiros do IRD no Brasil estavam jornalistas, intelectuais, sindicalistas e padres. E, claro, praticamente todos os donos de jornais, incluindo marcas conhecidas e ainda hoje em atividade, como: O GloboO Estado de São PauloFolha de S.Paulo e Jornal do Brasil.
Durante o período stalinista, a imprensa mundial pouco sabia o que acontecia para além da cortina de ferro. Assim, as agências estrangeiras de informação preenchiam essa lacuna, municiando a mídia brasileira com informações falsas.
Segundo Geoffrey Stow, oficial de informação da embaixada britânica no Brasil, o país não correria o risco de uma revolução comunista, pois a imprensa, os militares e a Igreja Católica eram fortemente antissocialistas. E foi com essas instituições que o IRD e a CIA trabalharam em parceria. Por meio da imprensa, as agências se comunicavam com a classe média. A Igreja Católica era o canal com o homem pobre. E os militares, o último elo da nova democracia, ou seja, aqueles que poderiam substituir as eleições, caso estas saíssem do controle.
Mas as rivalidades internas não deixavam de criar dificuldades. Nos primeiros anos de atividade do IRD, Stow queixava-se da dificuldade em “plantar” notícias em São Paulo. O governador Adhemar de Barros teria advertido os jornais a não publicarem esse tipo de material, ele queria o apoio dos comunistas nas eleições presidenciais seguintes. O jornal O Globo também criou dificuldades. Segundo o mesmo Geoffrey Stow, havia uma séria questão que precisava ser resolvida para que o material anticomunista se alastrasse pelo Brasil: “A queda é em função do fato de que um de nossos clientes regulares, O Globo, insistiu que só publicariam esses itens se no futuro obtivessem exclusividade”. Tal contratempo logo foi resolvido com um afago: “estamos enviando para eles cinco itens exclusivos por semana”. Mas Stow não deixou de lamentar a teimosia dos Marinho: “isso, claro, reduz o número de itens disponíveis para outros jornais”.
Nos anos 1960, há a retomada dos movimentos de esquerda, sobretudo no campo. “É muito curioso porque o país nos anos 1960 toma consciência da necessidade de dar um passo. Um passo na direção da democracia. Um passo na direção da nação.” (Plínio de Arruda Sampaio, O Dia Que Durou 21 Anos). O que o socialista Plínio de Arruda Sampaio entendia como “um passo em direção à democracia” era visto pela embaixada americana como um passo (largo) para o totalitarismo. A vitória da Revolução em Cuba também acendeu o “sinal de alerta”. O Brasil entrava definitivamente no radar americano.
O documentário O dia que durou 21 anos (todos os documentos abaixo, referidos à embaixada americana, foram retirados dessa obra), reproduz as correspondências trocadas entre o embaixador dos EUA, Lincoln Gordon, e o presidente John Kennedy. Em um desses telegramas, Gordon informa: “Goulart discursou defendendo o nacionalismo verde-amarelo. Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul, desapropriou duas empresas norte-americanas (Amforp e ITT), tais ações são uma ameaça aos interesses econômicos dos EUA e são consideradas totalmente inaceitáveis.”
Como podemos observar, o critério que unia “nacionalismo” e “comunismo” eram os interesses americanos. O nacionalismo bom era aquele anticomunista, enquanto o ruim era o que buscava maior autonomia frente à influência dos EUA.
A opinião de Gordon, porém, essa não era a mesma do IRD, agora dirigido por Robert Evans. Evans demonstrava uma percepção da realidade nacional mais refinada que a do embaixador norte-americano: “muito tem sido escrito sobre o perigo de insurreição no campo. Eu acho um exagero”. Em outra passagem do relatório, Evans diz que o nacionalismo, que tanto incomodava os EUA, era uma faca de “dois gumes”: do mesmo modo que dificultava a hegemonia norte-americana na região, também afastava outras ideologias como a comunista.
A agência britânica propunha novos métodos para isolar os comunistas. Para Evans, seria preciso estimular a “esquerda saudável”, ou seja, a esquerda não-comunista. “Ela continua a ser um fator estabilizador, que atua como um freio no movimento de esquerda.”
Mas essa tarefa era arriscada. Os conservadores tinham dificuldades de diferenciar essas esquerdas e tal prática poderia alarmar a direita. O oficial britânico conclui defendendo mais recursos em palestras para o público brasileiro sobre o trabalhismo inglês (mais moderado), visitas de professores e pesquisadores ao Reino Unido, assistência a autores brasileiros, apoio a projetos selecionados, bolsas de estudos etc.
Evans entendia que a esquerda era uma realidade política inevitável. Havia certa indignação e uma crescente vontade de mudanças estruturais no interior da sociedade brasileira. Essa energia política não seria dissipada pelo discurso conservador. Por isso, a necessidade de fortalecer a esquerda reformista, única capaz de conter o avanço do “radicalismo” dentro da classe média. “Estou convencido de que a mistura de nacionalismo, patriotismo, antiamericanismo, marxismo e muitos outros ismos se consolidará gradualmente em um partido de centro-esquerda.”
Essa definitivamente não era a opinião dos norte-americanos e dos conservadores brasileiros. A estratégia destes grupos foi oposta à de Evans. Ao invés de separar a esquerda “saudável” da esquerda marxista, eles colocaram todos no “mesmo saco”. A ideia era confundir de modo proposital as Reformas de Base com a economia planificada. Desse modo, poder-se-ia jogar todo o peso de anos de propaganda anticomunista nas costas da esquerda reformista. Se os britânicos desejavam amenizar as tensões empurrando a esquerda para o centro, a CIA queria acirrar os conflitos, os antagonismos, para justificar uma solução armada.
O complexo IPES/IBAD: o ovo da serpente do golpe
170808-DizerNão3bÉ nesse contexto que é criado o complexo IPES/IBAD, uma rede financiada por empresas estrangeiras e nacionais, além da CIA e do IRD, para combater o avanço comunista em várias frentes. Os documentos do IRD definiam o IPES como um canal confiável: “mantenho contato muito próximo com o escritório do IPES no Rio de Janeiro sobre as edições em português das publicações do IRD e para passar material para as Forças Armadas” (Robert Evans). Lincoln Gordon também mencionou esse canal para infiltração estrangeira, nas correspondências com Kennedy:
Gordon: O IPES, que é progressista, precisa de alguma ajuda financeira. Acho que temos de ajudá-lo.
Kennedy: Quanto vamos ter que colocar nisso?
Gordon: Isso é coisa de uns poucos milhões de dólares.
Kennedy: Isso é muito dinheiro. Afinal, você sabe que numa campanha presidencial aqui, você gasta cerca de 12 milhões.
Gordon: Mas nós não podemos correr riscos.
(O Dia que Durou 21 anos)
No Brasil, o IPES apresentava-se como alternativa à radicalização política, tanto à direita quanto à esquerda. Dizendo ser um centro de estudos científicos e, por isso, “apartidário”, o órgão se colocava contra a “esquerda radical” e a “direita tradicional”. Enquanto a primeira supostamente queria transformar o Brasil numa “república sindicalista”, e a segunda não aceitava qualquer forma de mudança, eles estariam propondo as verdadeiras reformas estruturais.
As reformas não passariam pela redistribuição de terra, mas pela modernização do campo. Era preciso levar o capitalismo para o interior do Brasil. Diminuir a burocracia. Controlar a inflação. Estabilizar a economia. Acabar com a corrupção. E, principalmente, abrir o mercado brasileiro e pôr fim ao controle de fluxo de capitais.
Segundo o historiador Moniz Bandeira, tais agências funcionavam como holding, coordenando várias subsidiárias. Dentre elas: Ação Democrática Parlamentar (ADP), Campanha da Mulher Democrática (CAMDE), Frente da Juventude Democrática (FID) e Movimento Sindical Democrático (MSD). Para financiar essa sofisticada rede, houve ativa participação também do capital privado, dentre as empresas mais ativas, Moniz Bandeira destaca: Texaco, Shell, Bayer, IBM, Coca-Cola e Souza Cruz. É interessante notar a forte presença das petroleiras no financiamento da propaganda anticomunista.
Para massificar a narrativa liberal, o complexo IPES/IBAD produzia filmes e documentários (14 no total). Publicava revistas. Atuava nos quartéis. Financiava pesquisas. Chegando, inclusive, a comprar vários deputados nas eleições de 1962.
Em depoimento, Plínio de Arruda Sampaio lembrou:
“Na eleição em que eu fui candidato, fui procurado por um cidadão que queria me oferecer dinheiro para a campanha. Aí eu perguntei: qual é a contrapartida? Ele respondeu: nós só queremos que você defenda a democracia.” Meses depois foi aberta uma CPI na Câmara, para investigar o IBAD, que constatou que este recebia dinheiro do exterior para comprar deputados. “Foi um desfile de deputados dizendo: eu recebi, mas eu não sabia. Não havia nenhum minuto do Brasil, das 24 horas do dia, em que não houvesse uma emissora financiada pelo IBAD dizendo algo contra o presidente João Goulart.”
Essa rede permitiu a circulação da propaganda anticomunista em vários segmentos sociais, consolidando uma narrativa alternativa às reformas. Pior, a estratégia buscava convencer a população de que o país caminhava para uma ditadura sanguinária, aumentando as tensões políticas e os conflitos. O objetivo era justificar uma solução pela força. A ideia do IRD, de fomentar a “esquerda saudável” para barrar o avanço dos comunistas, havia sido abandonada em definitivo. O que se pretendia era construir uma base social capaz sustentar o golpe militar, que já estava sendo gestado.
Considerações Finais
Foi, portanto, com a criação do complexo IPES/IBAD que o cerco propagandista contra as Reformas de Base estruturou-se em definitivo. Os efeitos foram profundos.
O leitor atento deve ter percebido que, ao me referir à estratégia política dos conservadores, mencionei um tripé. A primeira perna era o discurso moralista. A segunda, o estímulo do medo e o seu substrato, o ódio. Ficou faltando explicar a última perna: o golpe!
A retórica alarmista, provocada pela propaganda anticomunista, obviamente, não é desinteressada. O discurso oficial da Guerra Fria separava a política em duas esferas antagônicas: o “Mundo Livre” e o “Império do Mal”. A fronteira entre essas duas realidades, aparentemente inconciliáveis, seria justamente a democracia e a liberdade. Porém, para evitar um desenvolvimento autônomo e manter a hegemonia americana no continente, o conceito de “democracia” precisou, e muito, ser alargado.
Como lembrou o filósofo Noam Chomsky, há pelo menos duas acepções possíveis para a palavra “democracia”: a primeira seria aquela em que o povo participa ativamente dos destinos coletivos e, portanto, tem acesso a educação de qualidade e os canais de informações são acessíveis e diversificados.
A outra considera que o povo deve ser mantido afastado dos assuntos públicos e, por isso, o acesso à informação, assim como a percepção da realidade, deve ser restrito. Podemos concluir, dessas duas noções propostas por Chomsky, que, durante a Guerra Fria, os EUA promoveram a primeira definição no plano simbólico e a segunda na prática.
Esse era o significado da “nova democracia” do IPES. A propaganda funcionou. Entre os dias 19 de março e 8 de junho, aconteceram as famosas Marchas da Família com Deus Pela Liberdade (contra a ameaça comunista). Estava consolidada a base social necessária para um golpe de Estado.
Apenas olhando para o nome dessas manifestações, percebe-se a influência da Igreja, que os documentos do IRD chamavam de parceira confiável. Os símbolos religiosos foram manipulados, de forma sistemática, para a conformação do imaginário anticomunista: a figura do comunista era frequentemente associada à sombra, às trevas e ao mal.170808-DizerNão5
O discurso liberal também usava de forma paradoxal com o conceito de “liberdade”. E as ambiguidades foram muitas, começando pelo fato de que essa liberdade representou 21 anos de Estado de Exceção. Instaurou-se uma ditadura em nome da democracia.
A partir de junho de 2013, o discurso alarmista anticomunista reapareceu no Brasil. Não por coincidência, tal fenômeno ocorreu durante um governo com características muito próximas às posições defendidas pelo presidente deposto João Goulart. A presidenta Dilma Rousseff também não concluiu seu mandato, sofrendo impeachment num processo extremamente duvidoso, para usar um eufemismo.
A maior dificuldade nos anos 1960 era a distribuição de material propagandista. Com o advento das redes sociais, essa barreira desapareceu. Os think tanks ultraliberais se espalharam de forma espantosa em poucos anos. Replicando um discurso plastificado. Ou melhor, “cavado e empacotado”.
Bem, o restante da história você conhece. Vou deixar, portanto, a análise crítica do atual momento para o leitor. Termino por aqui. Não vou convidar você para nenhuma cruzada salvacionista. Mais importante do que acertarmos é não repetirmos os mesmo erros. Ou melhor, não cairmos nas mesmas armadilhas.
Para Saber Mais
BANDEIRA, Luis Alberto Moniz. O Governo João Goulart: as lutas socais no Brasil. São Paulo: Editora UNESP, 2010.
BANDEIRA, Luis Alberto Moniz. Presença dos Estados Unidos no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.
CATARINO, Geraldo. Segredos da Propaganda Anticomunista: documentos diplomáticos revelam a atuação do IRD, um departamento secreto do governo britânico no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad X, 2011.
CHOMSKY, Noan. Mídia: propaganda política e manipulação. Martins Fontes, 2013.
DREIFUSS, René Armand. 1964 — A Conquista do Estado. Ação política, poder e golpe de classe. Petrópolis (RJ): Vozes, 1981.
Documentários
O Dia Que Durou 21 Anos
Congresso Brasil Paralelo, capítulo 04: A Máquina Comunista
IPÊS: O Brasil precisa de Você


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Eduardo Migowski

Professor formado em história, mestre em filosofia pela PUC/Rio, e atualmente faz doutorado em ciências políticas na UFF. Escreve também regularmente para a Revista Voyager.