quinta-feira, 31 de maio de 2018

Lang Lang plays Tchaikovsky : Piano Concerto No. 1 in B-flat minor, Opus...

A centralidade do petróleo no golpe de 2016


Washington têm necessidade dramática de fontes de energia baratas e vê como inadmissível um país com imensas reservas aliado à China e Rússia, no contexto dos BRICS
Por José Álvaro de Lima Cardoso
Quem não entender que o petróleo está no centro do processo golpista em operação no Brasil terá dificuldade de compreender a conjuntura econômica e política nacional. Os EUA, que dão as coordenadas principais do golpe no Brasil, têm uma necessidade dramática de fontes de suprimentos, na medida em que é o maior consumidor de petróleo do mundo, mas não em quantidade suficiente para suprir o consumo do país. Por detrás do golpe no Brasil (como ocorreu nos demais países da América Latina que foram golpeados) há uma constatação de caráter estratégico, que é definitiva: o petróleo barato de produzir não tem nenhum substituto. Ele acabou, e o mundo já há algum tempo sofre as consequências políticas, sociais e militares deste problema. A produção de petróleo não convencional (o chamado “shale oil”, produção a partir de xisto betuminoso), vem adiando um pouco o momento em que a produção mundial de combustíveis irá diminuir em termos absolutos (ver o importante artigo “Energia e desenvolvimento soberano, em dez lições”, de Felipe Coutinho).
Os recursos do pré-sal, anunciados pela Petrobras em 2006, mudaram a inserção e a posição do Brasil na oferta de energia mundial. Eles podem chegar a 300 bilhões de barris, o que significa, em termos monetários, algo em torno de R$ 30 trilhões. Apesar das declarações estapafúrdias de alguns “especialistas” à época do anúncio — que diziam dentre outras coisas que o óleo do pré-sal era inviável comercialmente — este já representa hoje 50% da produção nacional. A estimativa do setor é que, se o Brasil não tivesse descoberto o pré-sal, hoje o país já estaria importando 500 mil barris/dia de petróleo. O produto extraído do pré-sal possui, além disso, alta produtividade e baixo risco de exploração, razões pelas quais, também, motivou um sórdido golpe de estado.
Segundo denúncia da Federação Única dos Petroleiros (FUP), que organiza neste momento um calendário de luta, o golpe passará a atacar agora as refinarias, com a venda de 60% de quatro unidades essenciais: REPAR (PR), Abreu e Lima (PE), RLAM (BA) e Refap (RS). Somente a venda dessas quatro unidades irá afetar o emprego de 3.700 trabalhadores. Mas o pacote inclui ainda 24 dutos e 12 terminais. O golpe segue, assim, um roteiro criminoso, visando converter o Brasil em mero provedor de matérias-primas para o mundo desenvolvido e, ao mesmo tempo, transformar o país em importador de derivados do petróleo e de produtos industrializados em geral.
Um aspecto peculiar deste golpe é que é possível denunciar suas consequências ao mesmo tempo em que ele vai se desenvolvendo. Porém, como estamos em processo de guerra semiótica e não temos força para barrar as ações do golpe neste momento, praticamente nada acontece. É uma briga de David contra Golias.
O Brasil é vítima da chamada guerra híbrida, guerra não convencional, que se vale de instrumentos linguísticos e simbólicos, usando métodos altamente sofisticados. Esse tipo de metodologia utilizou “aliados internos” para perpetração do golpe, no Judiciário, na polícia, entre as empresas, na mídia, no parlamento e demais estruturas do Estado. Foi um golpe parlamentar/jurídico/midiático.
Os EUA estão dando golpes no mundo todo, com atenção especial para a América Latina, que consideram seu “quintal”. Porém, além do petróleo e outras matérias-primas essenciais, uma explicação central do envolvimento dos EUA no golpe no Brasil é também a tentativa de impedir que se crie outra potência no continente americano. Uma potência na América do Sul e ligada comercial e politicamente à China e à Rússia é tudo o que os Estados Unidos não querem. Não foi por acaso que o ataque inicou pela Petrobras e pelas grandes construtoras, a começar pela Odebrecht. Essas empresas eram estratégicas para o ataque do capitalismo financeiro americano no enfraquecimento dos BRICS e no processo de inserção autônoma, econômica do Brasil junto com Rússia, China, e os demais países.
Há brasileiros bem intencionados achando que as eleições de 2018 irão “consertar tudo”. Mas é grande o risco de as eleições serem apenas um mecanismo de institucionalização do golpe. O serviço não foi concluído, pretendem aprofundar muito mais a destruição, o que passa por institucionalizar o golpe, isto é, dar-lhe uma fachada de legalidade. E as eleições terão um papel fundamental nisso, se conseguirem garantir a vitória de um candidato seu. Se perceberem que não irão conseguir emplacar um  candidato irão inviabilizar as eleições, utilizando qualquer pretexto (como no caso do impeachment em 2016). Irão lançar mão, se precisar, inclusive do golpe militar. É uma temeridade que uma parte significativa dos trabalhadores esteja apostando todas suas fichas nas eleições, dentre outras razões porque elas podem não acontecer.

terça-feira, 24 de abril de 2018

A verdadeira razão da queda da Dilma e criminalização do Lula e do PT


O silêncio da mídia ante o crescimento da dívida pública sob Temer

O crescimento da dívida pública no mandato da presidenta Dilma democraticamente eleita foi apresentado como grande catástrofe para o Brasil, capaz de justificar - à luz dos interesses dos rentistas – o golpe político que permitiu a ascensão do governo Temer. Entre dezembro de 2010 e maio de 2016, último mês do governo Dilma, a Dívida Líquida Consolidada do Setor Público passou de 38% para 39,2% do Produto Interno Bruto (PIB), o que revelou aumento acumulado em 65 meses de 3,2% (ou 0,05% ao mês).
Com a entrada da equipe econômica de Temer, aquela dos "sonhos do mercado financeiro", o receituário neoliberal ganhou força, sem que a "desordem das finanças públicas" fosse contida. Pelo contrário, a Dívida Líquida Consolidada do Setor Público saltou de 39,2%, em maio de 2016, para 52% do PIB em fevereiro de 2018, isto é, a elevação de 32,6% acumulados em 21 meses (ou 1,4% ao mês).
Mesmo com a Dívida Líquida Consolidada do Setor Público sob o receituário neoliberal aplicado pelo governo Temer tendo sito multiplicado por 28 vezes mais rapidamente que no mandato de Dilma, o tema praticamente desapareceu do noticiário nacional. Interessante observar ainda o "esquecimento" da mídia e dos comentaristas e analistas neoliberais do fato de o Brasil caminhar rapidamente para a 12ª maior dívida pública do planeta, detendo uma das mais elevadas taxas juros reais do mundo e assumindo a quarta posição internacional de maior gasto com o pagamento de juros da dívida pública em relação ao PIB.
De acordo com estudo do CEPR (Center for Economic and Policy Research) em 183 países, o Brasil somente registra comprometimento com despesas com a dívida pública menor que o Iêmen (8,36%), a Gâmbia (8,81%) e o Líbano (9,15% do PIB). Em síntese, nações que se encontram submetidas a conflitos internos e que apontam risco de não pagamento dos compromissos financeiros, bem diferente da situação brasileira.
O silêncio e a condescendência da mídia e dos analistas econômicos para a má gestão da dívida pública no Brasil se explica basicamente pela condição dos próprios interesses rentistas serem direta e indiretamente beneficiados através da captura de parcela significativa dos recursos públicos. Pela implantação do receituário neoliberal, o governo Temer protege o pagamento dos juros aos detentores privados da dívida pública, impondo simultaneamente o desembarque dos pobres das políticas públicas, o desmonte das áreas sociais (saúde, habitação, educação, assistência e outras), da infraestrutura (estradas, portos, aeroportos e outras) e dos investimentos na economia.
Também durante os anos de hegemonia do neoliberalismo nos governos de FHC (1995-2002), a Dívida Líquida Consolidada do Setor Público cresceu exorbitantemente, com o silêncio e a condescendência da mídia e dos comentaristas e analistas do mercado financeiro. Entre 1995 e 2002, por exemplo, a dívida pública liquida saltou de 30% para 60% do PIB, com elevação acumulada de 114% (ou 0,9% ao mês).
Ao contrário disso, os governos liderados pelo Partido dos Trabalhadores (Lula e Dilma) impuseram importante queda na Dívida Líquida Consolidada do Setor Público. Entre os meses de janeiro de 2003 e maio de 2016, por exemplo, a dívida pública líquida decresceu de 59,9% para 39,2% do PIB, ou seja, a redução acumulada de 29,9% (ou -0,2% ao mês).
Pelo crescimento da produção e a concomitante queda na taxa real de juros, o rentismo foi afetado negativamente pelos governos do PT. Com isso, abriu-se maior espaço fiscal para a incorporação dos pobres nas políticas públicas e o fortalecimento dos gastos nas áreas sociais, infraestrutura e investimento estatal.
Atualmente, assiste-se justamente o contrário com o governo Temer que, apoiado pelo retorno do neoliberalismo, mantém a economia estagnada e elevada taxa real de juros. Esse cenário, contudo, dificilmente terá continuidade, caso o Brasil realize, em outubro de 2018, eleições livres e democráticas, uma vez que o condomínio golpista não consegue viabilizar competitivamente um candidato presidencial.
Sem candidatura portadora de vitória, o rentismo e seus asseclas tratam cada vez mais da continuidade do golpe político de 2016. Por isso, a inviabilização das eleições presidenciais livres e democráticas ganha cada vez maior centralidade.

sexta-feira, 30 de março de 2018

DILMA TENTOU EVITAR PROPINA DE TEMER EM SANTOS

“Sabemos onde estão seus filhos”


John Bolton
A tenebrosa história de como o novo conselheiro de Segurança Nacional de Bush ameaçou um embaixador brasileiro em 2002, para convencê-lo a apoiar a invasão do Iraque
Por José Antonio Lima, no Intercept
No início da noite da última quinta-feira, enquanto o Brasil acompanhava o julgamento do habeas corpus do ex-presidente Lula no Supremo Tribunal Federal, Donald Trump fez um anúncio que deixou o mundo ainda mais perplexo com seu governo. O novo conselheiro de segurança nacional, cargo decisivo da Casa Branca no que diz respeito ao uso da força militar americana, será John Bolton, um dos arquitetos da invasão ao Iraque comandada pelos Estados Unidos em 2003. Bolton, ex-embaixador da ONU, é conhecido por posturas militaristas extremas e seu desdém pela diplomacia. Ele também é uma figura que reanima memórias infelizes nos corredores do Itamaraty em Brasília.
Em 1997, ainda no primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso, o Brasil conseguiu uma vitória internacional: emplacou o diplomata José Mauricio Bustani na presidência da Organização para a Proibição de Armas Químicas, a Opaq. O órgão, baseado em Haia, na Holanda, tinha uma missão tão nobre quanto complicada – aplicar de fato a Convenção sobre Armas Químicas e tentar livrar o mundo deste tipo de armamento. Em 2013, a Opaq foi agraciada com o Nobel da Paz.
No ano 2000, Bustani foi reeleito por unanimidade, mas não conseguiu completar seu mandato, graças a uma intensa campanha nascida no seio da administração de George W. Bush. Um dos personagens centrais da cruzada foi justamente John Bolton, o agora conselheiro de Trump, que, na época, era subsecretário de Estado para o Controle de Armas.
“Ele entrou no meu escritório, me ameaçou e deu 24 horas para que eu renunciasse”, relembra Bustani em entrevista ao The Intercept Brasil. “Foi um ultimato. Ele disse: ‘Nós sabemos onde estão seus filhos’. Na época, os dois estavam em Nova York, nos Estados Unidos. Eu respondi: ‘Eu não tenho medo de nada e nem eles. Se vocês quiserem, me ponham para fora”. Em 2013, ao jornal The New York Times, Bolton confirmou o encontro, mas negou a versão do brasileiro. O jornal não cita a ameaça.
José Maurício Bustani, ex-presidente da Organização para Proteção contra Armas Químicas da ONU. Por recusar-se a ceder, foi afastado. Governo FHC não o defendeu
A reunião aconteceu no início de 2002, pouco depois dos atentados terroristas do 11 de Setembro. A atrocidade, que chocou e transformou o mundo, fora cometida pela Al-Qaeda, organização comandada pelo saudita Osama Bin Laden, mas o governo dos Estados Unidos incluiu em sua lista de inimigos o regime de Saddam Hussein no Iraque, que nada teve a ver com o ataque, nem seu idealizador.
Aquele episódio foi visto, entretanto, como uma janela de oportunidade para um grupo de integrantes da ala neoconservadora do Partido Republicano, obcecada com Saddam e com a “missão incompleta” de Bush pai, que deflagrara a Guerra do Golfo no início dos anos 1990, mas retrocedera antes de derrubar o ditador iraquiano.
John Bolton foi um dos ideólogos mais vociferantes dessa turma. Em 1998, ele foi um dos signatários de um manifesto de republicanos intervencionistas que pedia ao então presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, que considerasse seriamente a possibilidade de “regime change” (mudança de regime) no Iraque. Também assinaram o documento figuras como Paul Wolfowitz, Donald Rumsfeld, Richard Armitage e outros republicanos que ocupariam cargos chaves no governo Bush. Ao longo de 2002 e 2003, essas pessoas enganaram a opinião pública internacional com “evidências” falsas dos planos de Saddam e, assim, justificaram a invasão. Não existia arsenal de armas químicas no Iraque.
No início de 2002, quando Bolton visitou Bustani na Holanda, seu papel era determinante na empreitada dos homens de Bush para tentar convencer o mundo de que Saddam Hussein era uma ameaça por supostamente possuir armas de destruição em massa. O diplomata brasileiro diz que virou alvo de Washington quando obteve do governo iraquiano, no fim de 2001, um aceno positivo a respeito da possibilidade de aderir à Convenção das Armas Químicas. Isso obrigaria Bagdá a listar todo seu arsenal e permitir a entrada de funcionários da Opaq. “Se eu entrasse com os meus inspetores e mostrasse que não havia nada, a lógica da invasão acabaria”, diz Bustani.
Em março de 2002, a ameaça se tornou real. Washington apresentou à Opaq uma moção acusando Bustani de gerenciar mal o setor financeiro da entidade. O conselho consultivo do órgão, no entanto, rejeitou o pedido. Bolton e sua turma não desistiram. No mês seguinte, os EUA convocaram uma conferência geral da organização e, após intensa pressão sobre os países-membros, conseguiram destituir Bustani, com 48 votos a favor, 7 contra (incluindo o do Brasil) e 43 abstenções. Foi a primeira vez na história da ONU que um diretor era afastado por voto em meio a seu mandato.
“O resultado disso foi a guerra e isso me frustra muito, ainda mais porque fui traído pelo meu governo”, diz Bustani.
A guerra no Iraque continua após 15 anos sangrentos em que entre 100600 mil pessoas foram mortas, a maioria civis. O conflito ajudou a criar o Estado Islâmico  e desestabilizou uma região já frágil diante de décadas de intervenção norte-americana. Iraque, Síria, Iêmen, Líbia e Afeganistão são zonas de guerra ativas  e muitos outros países da região estão instáveis.
Bustani acusa o Brasil de não defender seu mandato e não fazer campanha na votação que culminou com sua queda. “O Bolton disse que tinha um acordo com o governo brasileiro, eu disse que desconhecia isso, mas depois vi que era verdade”, afirma. Para o diplomata, o então ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Lafer, recebera de Fernando Henrique Cardoso uma ordem de não desagradar os americanos.
Eu liguei para Lafer. Ele contesta essa versão. “Bolton e os Estados Unidos de fato fizeram pressão para o afastamento do Bustani”, afirma o ex-ministro. A ideia de Washington, segundo ele, era ter liberdade de ação no Iraque sem as amarras das organizações internacionais, empreitada que a atuação do diplomata brasileiro poderia atrapalhar.
Neste contexto, diz Lafer, o governo FHC examinou a questão e decidiu tratá-la apenas no plano multilateral. “Decidimos que não faríamos disso um tema da agenda bilateral com os Estados Unidos e assim o fizemos, defendendo a manutenção do Bustani na posição”. A defesa foi de todo fraca. Nas palavras do próprio Lafer, os EUA “passaram um rolo compressor” na votação da Opaq.
Após sua destituição, Bustani se voltou contra Lafer e FHC. Em uma entrevista ao canal britânico BBC,  acusou o Brasil de abandoná-lo. Como resultado, foi destituído também da posição de cônsul-geral em Londres, para onde tinha sido enviado de forma temporária. Na volta a Brasília, ficou cerca de um ano sem função no Itamaraty. Só retomou a carreira em 2003, quando Lula, recém-eleito, o nomeou embaixador em Londres.
Também em 2003, a Organização Internacional do Trabalho julgou uma reclamação de Bustani contra sua remoção da Opaq. Para a OIT, o processo liderado por Bolton foi ilegal e nulo. O diplomata brasileiro recebeu uma indenização, que doou à própria Opaq.
Atualmente aposentado, após ser também embaixador em Paris, Bustani avalia que a nomeação de Bolton para o cargo de conselheiro de segurança nacional é um “grande equívoco” de Trump. “Ele não tem a capacidade nem o talento para esse cargo. É um homem bruto e brutal, desajustado e desequilibrado, não é de diálogo,” afirma. Nisso, Celso Lafer concorda. “Vejo essa nomeação com muita preocupação”, diz o ex-ministro. “É uma personalidade pouco afeita ao diálogo diplomático”.
Ex-comentarista da Fox News, Bolton defende ataques militares  tanto ao Irã quanto à Coreia do Norte. Esses países formavam, ao lado do Iraque, o “eixo do mal” de George W. Bush. Talvez Bolton se veja agora diante de uma nova missão incompleta.