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"O Brasil chegou a constar como sexta maior economia do mundo. Tínhamos uma valorização na moeda nacional e também um crescimento econômico que chegou a colocar o Brasil na frente do Reino Unido, o que é algo realmente impressionante de pensar, historicamente o que é o Reino Unido, o que é o Brasil, e vínhamos em um processo de crescimento a ponto de, naquele ranking, [ter a expectativa de] ultrapassar em pouco tempo a França e logo em seguida a Alemanha", declarou.
"Sem sombra de dúvida, a operação Lava Jato interferiu diretamente e atrapalhou o processo de internacionalização das empreiteiras brasileiras no período recente. Então notamos justamente que essas empresas haviam se tornado grupos multinacionais com presença não só no mundo periférico, mas também nas potências tradicionais. Só a Odebrecht tinha mais de 40 obras nos Estados Unidos, obras no continente da Europa Ocidental e em vários outros locais. Porém esse processo, em boa medida, foi interrompido por conta justamente da operação Lava Jato e de todos os processos que a empresa sofreu, com a descapitalização", explica o professor da UFRRJ.
"O PSDB também foi afetado, houve várias lideranças envolvidas nessas investigações, como o Aécio Neves. O ex-presidente Michel Temer teve investigações contra si. Após ele sair do mandato, em 2019, ele teve uma prisão rápida, deflagrada a partir da operação Lava Jato no Rio de Janeiro. Aquela situação ali do quadrilhão do MDB, cujo caso na época estava com o juiz da Lava Jato no Rio de Janeiro, o Marcelo Bretas", finaliza.
No dia 14 de Maio o estado de Israel comemora a sua criação; no dia 15 de Maio comemoramos solenemente o Dia da Naqba, a catástrofe que seguiu diretamente do estabelecimento do Estado de Israel e que viabilizou esse estado através de uma expulsão massiva da população palestiniana árabe.
ALAN STOLEROFF - JUDEUS PELA PAZ E JUSTIÇA

Em 1967, na sequência da ‘guerra de 6 dias’, Isaac Deutscher, eminente historiador marxista e judeu ideologicamente antissionista, deu uma entrevista à New Left Review em que ele proferiu a frequentemente citada parábola seguinte:
“Um homem saltou uma vez do último andar de uma casa em chamas, onde já tinham morrido muitos membros da sua família. Conseguiu salvar a sua vida; mas, ao cair, bateu numa pessoa que estava lá em baixo e partiu-lhe as pernas e os braços. O homem que saltou não teve escolha; no entanto, para o homem com os membros partidos, ele foi a causa da sua desgraça. Se ambos se comportassem de forma racional, não se tornariam inimigos. O homem que escapou da casa em chamas, depois de recuperado, teria tentado ajudar e consolar o outro sofredor; e este último poderia ter percebido que era vítima de circunstâncias sobre as quais nenhum deles tinha controlo.
Mas vejam o que acontece quando estas pessoas se comportam de forma irracional. O homem ferido culpa o outro pela sua miséria e jura fazê-lo pagar por ela. O outro, com medo da vingança do aleijado, insulta-o, dá-lhe pontapés e bate-lhe sempre que se encontram. O homem pontapeado jura de novo vingança e é de novo esmurrado e castigado. A amarga inimizade, tão fortuita no início, endurece e acaba por ensombrar toda a existência dos dois homens e envenenar as suas mentes.”
(Isaac Deutscher "The Arab-Israeli War", New Left Review (23 Junho, 1967)
Na altura - logo a seguir a guerra e o início da ocupação da Cisjordânia, os Montes de Golan, Gaza e Jerusalém oriental - esta perspetiva de Deutscher era conveniente e parecia mais que razoável e progressista. Há apenas 22 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, a criação do Estado de Israel, supostamente como abrigo nacional para o povo judeu martirizado, ainda parecia, para muitos, necessária, inevitável e justa - devido à sequência histórica de circunstâncias trágicas que conduziram à fuga desesperada da Europa entre 1932 e 1948 para Palestina de aproximadamente 370.000 refugiados e sobreviventes judeus do Holocausto. (Reza a Declaração de Independência proclamada no dia 14 de Maio de 1948: “O Holocausto nazista, que engolfou milhões de judeus na Europa, provou novamente a urgência do restabelecimento do Estado Judeu, que resolveria o problema da falta de um lar para os judeus, abrindo os portões para todos os judeus e elevando o povo judeu à igualdade na família das nações.”) Ainda hoje esta alegoria sossega a consciência de muita gente de boas intenções e incorpora as bases da legitimação da realização do projeto sionista da criação de um estado judeu na Palestina.
Mas há numerosos problemas com esta imagem do conflito e do seu enquadramento de reações mais ou menos racionais ou irracionais aos desastres sofridos pelas partes.
É uma narrativa parcial, que omite o contexto que precede ao salto da primeira vítima do incêndio e não toma em conta as falhas dos bombeiros. Inferimos imediatamente da citação de Deutscher que o incêndio é o Holocausto na Europa. No entanto, o contexto esquecido é o colonialismo britânico e a colonização sionista na Palestina mandatária; os bombeiros são as Nações Unidas, cujo plano de partição da Palestina, em vez de extinguir as chamas, foi a faísca de mais fogo.
Trata-se infelizmente de uma narrativa que foi construída no contexto do silenciamento da voz e apagamento da experiência do povo indígena da terra palestiniana. É uma narrativa que escamoteia o projeto colonizador sionista na sua origem, cuja pretensão a um estado judaico implicava a deslocação e expulsão da maioria dos habitantes da terra. É uma narrativa que ignora a intencionalidade estratégica dos fundadores sionistas do estado de Israel na conduta da sua ‘guerra de independência’, que, sobretudo através do ‘Plano Dalet’, provocou a Naqba palestiniana, ou seja, a expulsão de até 750.000 habitantes árabes e a destruição de mais que 400 aldeias. Como refere Rachid Khalidi na sua crónica sobre a guerra de 100 anos contra a Palestina (título na versão original em inglês), a Naqba representa uma viragem na história da Palestina de um país maioritariamente árabe para um país com uma maioria judia substantiva através da limpeza étnica e o roubo da propriedade abandonada pelos refugiados.
No rescaldo da guerra de 1967, a Naqba aprofundou-se quando o Estado israelita conseguiu ocupar o que restava da Palestina, que tinha estado nas mãos da Jordânia, da Síria e do Egipto. Seguiu-se à guerra mais um movimento ilegal de expropriação e colonização. Esse movimento, iniciado estrategicamente pelo governo trabalhista vitorioso, transformou-se nas últimas décadas num movimento nacional religioso fanático com a missão messiânica de expulsar a restante população palestiniana e ‘reclamar’ toda a terra da Palestina como o Grande Israel. Este movimento maligno, juntamente com o arrogante e belicista partido Likud, detém atualmente o domínio do Estado israelita. A realidade da Naqba hoje é a consolidação de um regime de ocupação, apartheid e bloqueio e, mais recentemente, a perpetração de uma guerra, de uma violência sem precedentes, contra o povo de Gaza, que Netanyahu e o seu governo de fascistas esperam que produza mais uma vaga de expulsões e morte.
O Isaac Deutscher foi um grande historiador e pensador; certamente, se tivesse vivido, ele teria feito uma autocrítica após a leitura dos trabalhos dos novos historiadores (Walid Khalidi, Benny Morris, Ilan Pappe, etc.) que desde os anos 1980s expuseram as limitações da sua parábola.
Não é (e nunca seria) a nossa intenção aqui demonizar ou culpabilizar a massa de judeus refugiados do antissemitismo e da perseguição e barbárie na Europa – entre os quais encontraram-se parentes nossos. Esses foram efetivamente vítimas de um genocídio e nenhum das potências europeias - nem os Estados Unidos - lhes proporcionou alternativas adequadas. (Além de mais, as potências chaves foram ao longo do tempo promotores de um projeto neocolonial e imperialista para o Médio Oriente em que o Estado de Israel, armado até os dentes, é um pivot fundamental; simultaneamente os Estados Unidos tornou-se o grande defensor das piores tendências políticas israelitas, inclusive promovendo emigração de União Soviética e dos EUA para Israel de gente que vieram a servir a expansão de colonatos nos territórios ocupados.) Mas, ao nosso ver, o não reconhecimento pelo estado e povo de Israel (e dos seus apoiantes e aliados) dos factos inegáveis do Naqba - e a ausência de reparações e compensações significativas - é a fonte de uma cegueira coletiva voluntária que tem permitido a governos sucessivos recusar resolver o conflito, aprofundar a ocupação do povo palestiniano, continuar um projeto de apropriação da Palestina e justificar o bloqueio de Gaza e os crimes de guerra atuais. Nós, ao contrário, reconhecemos o carácter colonial do sionismo e do estado de Israel e a realidade da Naqba palestiniana que esteve na base da fundação do estado. Também reconhecemos que a Naqba de 1947-48 constituiu o ponto de partida de um genocídio prolongado no tempo, realizado por etapas de que o massacre atual em Gaza é o clímax.
É evidente que não podemos voltar atrás e alterar o curso da história. As soluções para o futuro da Palestina e Israel, e as formas de reconciliação pelas injustiças cometidas, terão de ser encontradas reconhecendo as realidades do nosso mundo de hoje. Mas, não é o nosso objetivo hoje propor soluções que, alias, terão de emergir na luta e nas negociações eventuais pela paz. Hoje, as mais evidentes realidades são uma guerra indefensável, assassina e fútil em Gaza, em que mais uma vez Israel se ultrapassa na sua criminalidade, nas suas infrações às leis de guerra, ao direito internacional humanitário ao mesmo tempo se acelera e se exacerba a violência dos colonos e do exército na Cisjordânia. As realidades de hoje necessitam de medidas urgentíssimas: um cessar-fogo imediato e o provisionamento de toda a ajuda humanitária para salvar a população de Gaza e libertação dos reféns. É por isso que estamos aqui a exprimir a nossa solidariedade com o povo palestiniano neste Dia da Naqba.

Odeio os indiferentes. Como Friederich Hebbel acredito que "viver significa tomar partido". Não podem existir os apenas homens, estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão e tomar partido. Indiferença é abulia, parasitismo, cobardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.
A indiferença é o peso morto da história. É a bola de chumbo para o inovador, é a matéria inerte em que se afogam frequentemente os entusiasmos mais esplendorosos, é o fosso que circunda a velha cidade e a defende melhor do que as mais sólidas muralhas, melhor do que o peito dos seus guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama os assaltantes, os dizima e desencoraja e às vezes, os leva a desistir de gesta heroica.
A indiferença atua poderosamente na história. Atua passivamente, mas atua. É a fatalidade; e aquilo com que não se pode contar; é aquilo que confunde os programas, que destrói os planos mesmo os mais bem construídos; é a matéria bruta que se revolta contra a inteligência e a sufoca. O que acontece, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um ato heroico (de valor universal) pode gerar, não se fica a dever tanto à iniciativa dos poucos que atuam quanto à indiferença, ao absentismo dos outros que são muitos.
O que acontece, não acontece tanto porque alguns querem que aconteça mas porque a massa dos homens abdica da sua vontade, deixa fazer, deixa enrolar os nós que, depois, só a espada pode desfazer, deixa promulgar leis que depois só a revolta fará anular, deixa subir ao poder homens que, depois, só uma sublevação poderá derrubar. A fatalidade, que parece dominar a história, não é mais do que a aparência ilusória desta indiferença, deste absentismo. Há factos que amadurecem na sombra, porque poucas mãos, sem qualquer controle a vigiá-las, tecem a teia da vida coletiva, e a massa não sabe, porque não se preocupa com isso.
Os destinos de uma época são manipulados de acordo com visões limitadas e com fins imediatos, de acordo com ambições e paixões pessoais de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens não se preocupa com isso. Mas os factos que amadureceram vêm à superfície; o tecido feito na sombra chega ao seu fim, e então parece ser a fatalidade a arrastar tudo e todos, parece que a história não é mais do que um gigantesco fenómeno natural, uma erupção, um terremoto, de que todos são vítimas, o que quis e o que não quis, quem sabia e quem não sabia, quem se mostrou ativo e quem foi indiferente. Estes então zangam-se, queriam eximir-se às consequências, quereriam que se visse que não deram o seu aval, que não são responsáveis. Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas nenhum ou poucos põem esta questão: se eu tivesse também cumprido o meu dever, se tivesse procurado fazer valer a minha vontade, o meu parecer, teria sucedido o que sucedeu? Mas nenhum ou poucos atribuem à sua indiferença, ao seu ceticismo, ao facto de não ter dado o seu braço e a sua atividade àqueles grupos de cidadãos que, precisamente para evitarem esse mal, combatiam (com o propósito) de procurar o tal bem (que) pretendiam.
A maior parte deles, porém, perante factos consumados prefere falar de insucessos ideais, de programas definitivamente desmoronados e de outras brincadeiras semelhantes. Recomeçam assim a falta de qualquer responsabilidade. E não por não verem claramente as coisas, e, por vezes, não serem capazes de perspetivar excelentes soluções para os problemas mais urgentes, ou para aqueles que, embora requerendo uma ampla preparação e tempo, são todavia igualmente urgentes. Mas essas soluções são belissimamente infecundas; mas esse contributo para a vida coletiva não é animado por qualquer luz moral; é produto da curiosidade intelectual, não do pungente sentido de uma responsabilidade histórica que quer que todos sejam ativos na vida, que não admite agnosticismos e indiferenças de nenhum género.
Odeio os indiferentes também, porque me provocam tédio as suas lamúrias de eternos inocentes. Peço contas a todos eles pela maneira como cumpriram a tarefa que a vida lhes impôs e impõe quotidianamente, do que fizeram e sobretudo do que não fizeram. E sinto que posso ser inexorável, que não devo desperdiçar a minha compaixão, que não posso repartir com eles as minhas lágrimas. Sou militante, estou vivo, sinto nas consciências viris dos que estão comigo pulsar a atividade da cidade futura que estamos a construir. Nessa cidade, a cadeia social não pesará sobre um número reduzido, qualquer coisa que aconteça nela não será devido ao acaso, à fatalidade, mas sim à inteligência dos cidadãos. Ninguém estará à janela a olhar enquanto um pequeno grupo se sacrifica, se imola no sacrifício. E não haverá quem esteja à janela emboscado e pretenda usufruir do pouco bem que a atividade de um pequeno grupo tenta realizar e afogue a sua desilusão vituperando o sacrificado, porque não conseguiu o seu intento.
Vivo, sou militante. Por isso odeio quem não toma partido, odeio os indiferentes.
Texto originalmente publicado em La Città Futura, a 11 de fevereiro de 1917. Traduzido por Pedro Celso Uchôa Cavalcanti para o Marxists Internet Archive(link is external)