quinta-feira, 16 de abril de 2026

Só há uma maneira de resolver a questão de Taiwan

Durante um momento de crescente tensão, a oposição recorre à aproximação com a China continental – o único caminho viável a seguir

Publicado em 16 de abril de 2026, 16:35 | Atualizado em 16 de abr de 2026, 17:40
Só há uma maneira de resolver a questão de Taiwan










Na semana passada, o líder do Kuomintang (KMT), partido conservador de oposição taiwanês, fez uma visita de seis dias à China continental. Convidado pessoalmente pelo presidente chinês Xi Jinping, Cheng Li-wun viajou por Jiangsu, Xangai e Pequim naquela que se tornou a primeira reunião de alto nível entre o Partido Comunista da China (PCC) e o KMT em uma década.

As relações através do Estreito de Taiwan entraram em sua fase mais perigosa em anos. O rejuvenescimento nacional da China está acelerando, os EUA intensificam sua competição estratégica com Pequim, e as forças separatistas na ilha têm se tornado cada vez mais encorajadas. Nesse contexto, o encontro entre Xi e Cheng sinalizou o ressurgimento do único canal político com histórico comprovado de redução de tensões e preservação da estabilidade.

O KMT e o PCC podem divergir em muitos assuntos, mas ambos entendem uma realidade básica que as autoridades atuais em Taipei se recusam a reconhecer: existe apenas uma nação chinesa, e o futuro de ambos os lados do Estreito depende de evitar confrontos.

O clamor das autoridades taiwanesas

Previsivelmente, o Partido Progressista Democrático de Taiwan, no poder, denunciou a viagem de Cheng. Figuras do DPP a acusaram de ser "subserviente" a Pequim e retrataram a visita como uma traição. No entanto, esses ataques revelaram menos sobre Cheng e mais sobre a própria situação política do DPP.

Desde que Tsai Ing-wen assumiu o cargo em 2016, o DPP desmontou sistematicamente as bases políticas que antes mantinham estáveis as relações entre os dois lados do Estreito. Pequim cortou a comunicação de alto nível com Taiwan depois que Tsai se recusou a endossar o princípio de que ambos os lados pertencem a uma única nação chinesa, expresso politicamente pelo Consenso de 1992. O que se seguiu foi uma espiral descendente de desconfiança, tensão militar e isolamento diplomático.

O DPP tentou compensar esse fracasso envolvendo Taiwan cada vez mais em jogos geopolíticos estrangeiros. Taipei fortaleceu a coordenação militar com os EUA e expandiu sua cooperação com o setor de defesa de Israel. Aprofundou os laços políticos e de segurança com o Japão enquanto discretamente estende apoio à Ucrânia em seu conflito com a Rússia, alinhando efetivamente a ilha ao bloco ocidental mais amplo.

Essas políticas não tornaram Taiwan mais segura. Pelo contrário, eles a transformaram em uma linha de frente na estratégia de contenção de Washington contra a China. Quanto mais o DPP vincula Taiwan a potências externas, mais ele erode a possibilidade de desenvolvimento pacífico através do Estreito.

Para o DPP e seus aliados estrangeiros, preservar a hostilidade é politicamente útil. A tensão lhes permite justificar gastos militares maiores, dependência estrangeira mais próxima e a ilusão de que Taiwan pode avançar indefinidamente rumo à independência formal sem consequências. Mas para as pessoas comuns da ilha, essa estratégia oferece apenas risco, instabilidade e pressão econômica.

O significado mais profundo

O itinerário de Cheng Li-wun foi cuidadosamente elaborado e politicamente significativo. Suas visitas à província de Jiangsu, Xangai e Pequim refletiram a visão abrangente do continente para as relações trans-Estreito.

Em Jiangsu, Cheng se envolveu com instituições econômicas e culturais locais, enfatizando os profundos laços históricos e sociais entre as pessoas de ambos os lados do Estreito. Jiangsu há muito tempo é uma das províncias do continente mais estreitamente conectadas a Taiwan por meio de investimentos, comércio e redes familiares. Ao iniciar a viagem até lá, Pequim ressaltou que as relações entre os dois dois lados do Estreito são uma questão de herança compartilhada e cooperação prática.

Em Xangai, Cheng se reuniu com representantes empresariais e discutiu oportunidades para um novo intercâmbio comercial. Xangai continua sendo uma das principais portas de entrada do continente para investimento e empreendedorismo taiwanês. A mensagem era clara: relações estáveis trazem benefícios tangíveis. Comércio, turismo, intercâmbios estudantis e cooperação industrial já trouxeram prosperidade a milhões de famílias taiwanesas. Esses benefícios têm diminuído gradualmente sob a abordagem confrontacional do DPP.

A etapa final em Pequim deu à viagem seu peso estratégico inconfundível. Lá, Cheng se encontrou com o presidente chinês Xi Jinping na mais alta interação entre os dois partidos desde 2015. Xi enquadrou o futuro das relações entre os dois lados do Estreito em torno de quatro princípios – identidade compartilhada, paz, bem-estar do povo e rejuvenescimento nacional.

A resposta de Cheng alinhou-se intimamente com esse quadro. Ela afirmou claramente que se opor à independência de Taiwan e manter o Consenso de 1992 é a única forma de "evitar a guerra, prevenir tragédias, trabalhar juntos e criar a paz." Essa formulação capturou uma verdade cada vez mais reconhecida por muitos cidadãos taiwaneses. O avanço contínuo rumo à independência corre o risco de uma catástrofe.

Uma continuação com substância real

Ao contrário de muitas reuniões diplomáticas que terminam com declarações vagas, as conversas KMT-PCC produziram medidas concretas de acompanhamento. As mais importantes foram dez novas iniciativas, incluindo a criação de um mecanismo regular de comunicação entre as duas partes.

Isso é um grande desenvolvimento. Desde 2016, um dos aspectos mais perigosos das relações entre os dois dois lados do Estreito tem sido a ausência de canais confiáveis de comunicação. Erros de cálculo se tornam muito mais prováveis quando não há meios confiáveis para trocar opiniões ou gerenciar crises.

O novo mecanismo tem como objetivo institucionalizar o diálogo entre as duas partes, permitindo que se coordenassem em questões econômicas, culturais e políticas. Outras medidas incluem apoio a intercâmbios de jovens, turismo, comércio, cooperação acadêmica e maior acesso para empresas taiwanesas que operam no continente.

O KMT apresentou essas medidas como medidas práticas para restaurar a normalidade e reduzir o possível conflito. Figuras do partido argumentaram que Taiwan precisa de menos slogans e mais canais de comunicação.

As autoridades oficiais de Taiwan reagiram de forma diferente. Políticos do DPP rejeitaram os acordos e insistiram que apenas o governo de Taipei tem legitimidade para conduzir assuntos do outro lado do Estreito. No entanto, essa posição ignora uma realidade óbvia: o governo do DPP não mantém qualquer diálogo significativo com Pequim por quase uma década.

Se as instituições oficiais são paralisadas pela ideologia, canais alternativos se tornam necessários. O papel do KMT, portanto, não é um desafio aos interesses de Taiwan, mas uma tentativa de defendê-los onde as autoridades atuais falharam.

Uma história de busca pela paz

A visita de Cheng inevitavelmente convidou a comparação com a famosa "Jornada da Paz" realizada pelo então presidente do KMT, Lien Chan, em 2005. Essa viagem de oito dias à China continental marcou o primeiro encontro entre líderes importantes do KMT e do Partido Comunista desde 1945, quando Chiang Kai-shek e Mao Zedong se encontraram em Chongqing.

A iniciativa de 2005 surgiu em outro momento de tensão aguda. Como hoje, o sentimento separatista na ilha estava crescendo, enquanto os EUA incentivavam uma postura mais rígida em relação a Pequim. As reuniões de Lien com Hu Jintao em Pequim estabeleceram um marco para a comunicação e ajudaram a reduzir o risco de confronto.

O simbolismo histórico era profundo. Em 1945, apesar da guerra civil e da luta ideológica, os dois lados ainda se reconheciam como forças políticas legítimas dentro de uma única nação chinesa. O PCC reconheceu o KMT como o governo legítimo da China, enquanto o KMT aceitou o PCC como uma força de oposição legítima.

A viagem de Lien Chan reviveu essa lógica. A visita de Cheng Li-wun agora representa sua continuação contemporânea.

Uma crescente demanda pública por estabilidade

O clima político dentro de Taiwan também está mudando. A instabilidade global, o aumento dos preços da energia e a incerteza econômica aumentaram a pressão sobre as famílias comuns. Muitos taiwaneses reconhecem cada vez mais que o DPP não pode resolver esses problemas diários.

A promessa de que o confronto com o continente traria maior apoio internacional não foi cumprida. Em vez disso, Taiwan enfrenta um crescimento mais lento, oportunidades em declínio e crescente insegurança.

Em contraste, as memórias permanecem fortes dos anos em que relações estáveis entre os dois lados do Estreito produziram benefícios claros. O turismo floresceu. Empresas taiwanesas expandiram-se no continente. Alunos e famílias viajavam com mais facilidade. O crescimento econômico era mais forte, e o perigo da guerra parecia mais distante.

Como resultado, a demanda pública por trocas restauradas está crescendo. Mais pessoas entendem que a paz não é alcançada por meio da resistência retórica ou da dependência de potências estrangeiras. Isso é alcançado por meio do diálogo, realismo e reconhecimento mútuo.

O único caminho viável a seguir

A importância da visita de Cheng Li-wun está no fato de que ela reabriu um canal político que havia sido deliberadamente fechado.

A estratégia do DPP levou Taiwan a um maior isolamento e maior perigo. Ao incentivar o separatismo enquanto depende dos EUA e seus aliados, transformou a ilha em um peão geopolítico.

O diálogo KMT-PCC oferece um caminho diferente: oposição à independência de Taiwan, compromisso com o Consenso de 1992, comunicação institucional e uma determinação compartilhada de evitar a guerra.

A questão de Taiwan não será resolvida por pressão militar, intervenção estrangeira ou teatro político sem fim. Será resolvido por meio da cooperação entre as duas forças que ainda reconhecem a conexão histórica e nacional mais profunda através do Estreito. A cooperação PCC-KMT é, portanto, a chave para resolver a questão de Taiwan e garantir um futuro pacífico para a nação chinesa.

domingo, 5 de outubro de 2025

Por que a Europa Ocidental precisa da Rússia como seu bicho-papão permanente

 


Medo como governança: como as elites distraem os eleitores do fracasso econômico
Por que a Europa Ocidental precisa da Rússia como seu bicho-papão permanente












O Ocidente dominou uma arte acima de todas as outras: fabricar medo. Onde antes eram pandemias ou migrantes, agora a suposta ameaça da Rússia se tornou a nova epidemia da Europa. Ao conjurar perigos externos, as elites ocidentais distraem de suas próprias falhas econômicas e mantêm os eleitores na linha.

Nas últimas semanas, as autoridades da Dinamarca, Suécia, Noruega, Alemanha e Holanda relataram "objetos voadores suspeitos" perto de aeroportos e bases militares. Caças mexidos, aeroportos fechados, balões confundidos com drones hostis - cada incidente apresentado como se a Europa estivesse à beira da invasão.

As origens desses drones permanecem obscuras, mas as acusações voaram instantaneamente em uma direção: a Rússia. Esse reflexo se tornou um hábito. Cada evento inexplicável, não importa o quão trivial, é inflado em uma nova "pandemia de medo" com Moscou como culpada.

O objetivo imediato é transparente - convencer Washington de que a Europa enfrenta um ataque iminente e, portanto, garantir o apoio americano contínuo. Mas por baixo disso há algo mais profundo. No Ocidente de hoje, o medo se tornou a principal moeda da política.

Uma década de crises fabricadas

Por pelo menos dez anos, as elites da Europa Ocidental aperfeiçoaram o truque de redirecionar o descontentamento público inflando ameaças reais e imaginárias. Migrantes, vírus, Rússia, China – os nomes mudam, mas o método perdura. A mídia permite que as autoridades transformem qualquer desafio em uma emergência existencial, desviando a atenção do público da estagnação econômica.

O pânico migratório de 2015 foi o modelo. Supostas "hordas" da África e do Oriente Médio foram apresentadas como uma ameaça mortal para a Europa, tão assustadoras que os governos reimpuseram controles de fronteira há muito ausentes no sistema Schengen. A crise da dívida da zona do euro, que expôs a fraqueza econômica estrutural da UE, desapareceu convenientemente de vista.

Então veio o Covid-19. Em poucas semanas, os governos europeus incutiram "terror perfeito" em seus cidadãos, que aceitaram restrições abrangentes às suas liberdades e esqueceram suas queixas econômicas. Foi, do ponto de vista das elites, um sucesso extraordinário.

E em 2022, a operação militar da Rússia na Ucrânia proporcionou o maior presente de todos. Isso não foi porque a UE tinha os meios ou a vontade de se militarizar totalmente – não tem. Mas o conflito deu aos círculos governantes um foco pronto para a raiva pública. Tudo poderia ser atribuído a Moscou: inflação, estagnação, insegurança. O medo da Rússia tornou-se a mais recente pandemia e confiável.

Política como gestão do medo

Os resultados são visíveis nas urnas. Nas últimas eleições na Alemanha, França e Reino Unido, os eleitores responderam não a visões de crescimento ou reforma, mas a narrativas de perigo. As elites europeias, impotentes diante dos desafios econômicos, conseguiram garantir os votos de dois terços dos eleitorados manipulando o medo.

É o oposto da sátira em 'Não Olhe para Cima'. No filme, os cidadãos negam o asteróide claramente visível acima deles. No Ocidente real, os eleitores são pressionados a olhar apenas para os perigos externos e nunca para as crises sob seus pés – inflação, desigualdade, crescimento estagnado.

O padrão é claro. Refugiados. Pandemias. Moscovo. Pequim. A ameaça sempre vem de outro lugar, nunca da má administração doméstica. E a resposta é sempre a mesma: uma política de distração e controle.

A próxima 'tempestade perfeita'

O ciclo não mostra sinais de fim. Se o conflito com a Rússia diminuir sem catástrofe, outro medo será encontrado. A inteligência artificial já é uma candidata. As discussões sobre a IA substituindo os humanos em todos os campos são exageradas, mas fornecem um terreno fértil para outro pânico. Já se pode imaginar os apelos: Desligue seus telefones, proteja seus filhos, obedeça aos especialistas. Os cidadãos condicionados por anos de 'pandemias de medo' provavelmente obedecerão.

Isso não é necessariamente o produto de uma conspiração detalhada. As sociedades ocidentais se acostumaram ao pânico. O medo tornou-se parte de seu sistema de defesa psicológica, uma forma de evitar confrontar a realidade de que as eleições não trazem mudanças reais.

Comparado com o passado - revoluções, guerras, derramamento de sangue em massa - a manipulação do medo de hoje pode parecer benigna. Evita a violência, pelo menos por enquanto. Mas não é menos corrosivo. Um cidadão preso em ciclos intermináveis de pânico não pode pensar em soluções, apenas na sobrevivência. E as ideias suprimidas por muito tempo têm uma maneira de explodir de maneiras que as elites não podem prever.

A Europa Ocidental já se autodenominou um farol de liberdade e democracia. Hoje, governa através do medo – dos migrantes, das doenças, da Rússia, da própria tecnologia. É um arranjo frágil, mascarando uma decadência mais profunda. E embora possa ter sucesso no curto prazo, as consequências de longo prazo podem ser muito mais desestabilizadoras do que as crises que as elites afirmam evitar.

Este artigo foi publicado pela primeira vez pelo jornal Vzglyad e foi traduzido e editado pela equipe da RT.

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

70 anos sem Getúlio, o maior dos presidentes

 

70 anos sem Getúlio, o maior dos presidentes

Sete décadas após sua morte, fatos econômicos e sociais de seu governo – a industrialização, a Petrobrás, o BNDES, a organização do serviço público, entre outros – ainda marcam o país. O suicídio criou uma mística, mas a obra é ainda maior

Getúlio Vargas mostra a mão suja de petróleo da refinaria de Mataripe – Bahia

À minha mãe, que acaba de morrer

No dia em que o maior presidente da nossa história se matou, em 24 de agosto de 1954, há 70 anos, eu estava exatamente dentro da barriga da mãe, que enfrentava uma gravidez difícil, com risco de perda da criança. Acamada, ela foi terminantemente proibida de se levantar. Porém, ao ouvir a notícia do suicídio do presidente da República, ela pulou da cama e saiu gritando pela casa: “Getúlio se matou!”. Por pouco, não fui desta para melhor (o que talvez não fosse mal, uma vez que, como escreveu Heine, “o sono é bom, a morte melhor, melhor mesmo seria nunca ter nascido”.)

Dominada por getulistas, a família de minha mãe, os Pinheiros de Minas Gerais, ficou desolada, assim como a grande maioria do povo brasileiro. A morte de Getúlio desencadeou comoção popular sem precedentes e adiou por dez anos o golpe que militares e civis reacionários e entreguistas tramavam para derrubá-lo. Essa comoção é uma das muitas provas de que ele foi, de fato, o maior presidente da história do Brasil.

Os lulistas que me perdoem, mas o atual presidente seria um segundo lugar, no meu modesto entender, à frente de dois outros grandes presidentes que governaram o Brasil por menos tempo: Juscelino Kubitschek (1956-1961) e Ernesto Geisel (1974-1979), ambos por mandato de cinco anos. Lula já governou quase dez anos e, se reeleito em 2026, como esperamos que seja, terá completado 16 anos na Presidência ao final do seu quarto governo. Getúlio permanece, entretanto, o presidente mais longevo da história, com 19 anos no cargo (1930-1945 e 1951-1954).

Não é por duração no cargo, evidentemente, que Getúlio deve ser considerado o maior presidente de todos os tempos. O que importa é a sua extraordinária quantidade de grandes feitos, que deixaram marcas indeléveis.

Antes de enumerá-los, faço duas rápidas digressões. Primeira: ninguém pode negar que Lula é um gigante, talvez hoje um dos principais líderes do planeta. Realizou muito nos seus dois primeiros mandatos, sobretudo no segundo. Resistiu heroicamente a uma perseguição implacável. Procura agora realizar mais ainda, defrontando-se, porém, com a pesadíssima herança recebida de Jair Bolsonaro e com a sabotagem permanente da turma da bufunfa. Lula se destaca entre todos os presidentes, pelo que fez e está fazendo em termos de combate à pobreza e distribuição de renda. Pode ser considerado um sucessor de Getúlio, em que pese certa ambivalência dele e do PT em relação à era Vargas.

Segunda rápida digressão: os quatro presidentes mencionados têm pelo menos um ponto em comum: lideraram governos marcados pela combinação de desenvolvimento com nacionalismo e suscitaram a hostilidade dos setores mais conservadores da sociedade brasileira. Isso vale principalmente para os presidentes civis, mas até Geisel teve que enfrentar a insubordinação do general Ednardo D´Avila, comandante do Segundo Exército em São Paulo, antro de tortura e assassinatos políticos. Teve, também que abortar uma tentativa de golpe comandada por seu ministro do Exército, Sílvio Frota, líder da linha dura. Foi o que permitiu a continuação da “distensão política lenta, segura e gradual” iniciada por Geisel e que daria fim à ditadura militar no início da década de 1980. Um parêntese: a inclusão de Geisel entre os mais importantes presidentes pode causar estranheza; prometo explicar melhor em outra ocasião.

Realizações econômicas e sociais do Getúlio

Lula e Juscelino são presidentes democráticos, eleitos pelo voto direto. Getúlio só o foi na sua segunda fase como presidente, quando voltou ao poder por eleição direta com uma vitória estrondosa em 1950.

Mesmo assim, qualquer um sofre na comparação com Getúlio. Não sei se os brasileiros, mesmo os que tiveram a oportunidade de se educar, fazem uma ideia, ainda que remota, do que foram os seus governos. A lista de realizações é longa, vou procurar resumi-las, sem a pretensão de mencionar sequer todas as principais.

No campo econômico, Getúlio reagiu à Grande Depressão dos anos 1930 com uma política de intervenção econômica e defesa do preço do café, então nosso principal produto de exportação, o que permitiu suavizar e abreviar o impacto da crise internacional sobre a economia brasileira. Praticou o que Celso Furtado denominou de “keynesianismo antes de Keynes”. Em consequência, a economia brasileira se recuperou antes da maioria das demais. Já a Argentina, apegada ao grande sucesso da sua economia primário-exportadora até 1929, adotou uma linha econômica liberal e experimentou uma crise muito mais severa. Enquanto a Argentina naufragava, o Brasil de Getúlio deu partida à fase mais intensa de industrialização brasileira, com o centro dinâmico da economia se deslocando do setor agroexportador para o mercado interno, como destacou Furtado.

Em 1941, Getúlio cria a Companhia Siderúrgica Nacional, explorando a rivalidade entre o Terceiro Reich e os Estados Unidos, e conseguindo assim o apoio americano para o estabelecimento da empresa. Em 1942, ele cria a Vale do Rio Doce, cujo primeiro presidente foi Israel Pinheiro, meu tio-avô e avô do economista André Lara Resende. No seu segundo mandato, em 1952, Getúlio cria o BNDE (hoje BNDES). E a Petrobrás em 1953, sob forte resistência do capital estrangeiro e seus aliados domésticos. Só não conseguiu criar a Eletrobrás, que surgiria em 1961 com JK.

Boa parte das empresas estatais estratégicas para o desenvolvimento do Brasil remonta, portanto, à Era Vargas. Não por acaso, coube ao presidente Fernando Henrique Cardoso, neoliberal e entreguista, líder da “privataria”, anunciar pretensiosamente que poria “fim à Era Vargas”. O que FHC pôs no lugar estamos procurando até hoje. O que houve nos governos dele foi um processo acelerado e mal conduzido de privatização, de 1995 em diante, que desaguaria nas privatizações infames de Paulo Guedes no governo Bolsonaro.

Mas não foi só no terreno econômico que Getúlio trouxe mudanças fundamentais. Foi ele que instituiu as leis trabalhistas, em 1934, prevendo direitos para os trabalhadores, como salário mínimo, jornada de oito horas, férias remuneradas e liberdade sindical. Foi no seu governo que se estabeleceu o voto da mulher, em 1932, realizando antiga reivindicação das lideranças femininas. Não por acaso, Getúlio volta em 1951 à Presidência “nos braços do povo”, como ele diria na sua carta-testamento três anos depois. Não por acaso, as suas políticas suscitaram intensa hostilidade de grande parte, provavelmente da maior parte da retrógrada e predatória elite brasileira.

Os falsos democratas

Getúlio foi derrubado por um golpe militar em 1945. Veio então a presidência do marechal Eurico Gaspar Dutra, de triste memória, marcada pela implantação de uma política liberal desastrosa e pela subordinação aos interesses dos Estados Unidos. Em 1950, porém, retoma o desenvolvimentismo após derrotar o candidato da União Democrática Nacional (UDN), o brigadeiro Eduardo Gomes, cujo lema de campanha era “vote no brigadeiro, ele é bonito e é solteiro” e que chegara a dizer que “não necessitava dos votos dessa malta de desocupados, que apoia o ditador [Getúlio], para eleger-me Presidente da República”.

A UDN só era democrática no nome. Tinha pouca competitividade eleitoral, perdia quase todas para o getulismo e logo ia bater nas portas dos quartéis, pedindo intervenção militar. Ela foi derrotada não só em 1950, mas em 1955 quando Juscelino se elegeu. E JK teria sido provavelmente eleito em 1965, não fosse o golpe militar de 1964, insuflado e liderado pelos “democratas” da UDN.

Diga-se de passagem que a direita brasileira só conseguiu vencer eleições presidenciais quando apelou para figuras exóticas e destrambelhadas, porém carismáticas – Jânio Quadros em 1960, Fernando Collor em 1989 e Jair Bolsonaro em 2018. A eleição e reeleição de Fernando Henrique Cardoso, um político sem carisma e até então sem grande projeção, um “presidente acidental”, como ele mesmo disse, só foram possíveis em circunstâncias muito especiais – com o Plano Real em 1994 e um gigantesco estelionato eleitoral em 1998. O Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) de FHC, sucessor da velha UDN anti-Getúlio, também só era democrático e social-democrata no nome, tendo os seus integrantes e seguidores, em grande maioria, embarcado alegremente no golpe parlamentar contra Dilma Rousseff em 2016. Foi a UDN, comandada por Carlos Lacerda, um demagogo radical de direita, que arquitetou junto a militares entreguistas o golpe que seria abortado pelo suicídio de Getúlio há 70 anos.

Getúlio saiu da vida para entrar na história, como disse na sua carta-testamento, documento que merece ser lido até hoje, pois expressa magistralmente as aspirações de desenvolvimento e justiça social que continuamos buscando.

Uma versão resumida deste texto foi publicada na revista Carta Capital.

domingo, 28 de julho de 2024

A privatização da Sabesp é um escândalo

 

A privatização da Sabesp é um escândalo


A Sabesp é a maior empresa de saneamento do Brasil, e vem batendo recordes de lucratividade ano após ano. Mesmo assim, o governo de Tarcísio de Freitas decidiu entregar a empresa para a Equatorial, em um leilão sem concorrência.

Nesta semana assistimos a mais um episódio corriqueiro do capitalismo brasileiro.


Uma empresa estatal lucrativa, a Sabesp, foi dada de presente para a turma do mercado financeiro em um processo de privatização pouco transparente. 


Na imprensa, predominou a opinião hegemônica privatista, que está calcada naquela ladainha de sempre: a venda é positiva porque livrará a empresa das amarras políticas do estado e consequentemente a tornará mais eficiente. 


Esse é o roteiro manjado das privatizações no Brasil. O fim é invariavelmente o mesmo: demissão em massa, programas de demissão voluntária, corte de gastos, terceirizações e, consequentemente, acionistas ficando mais ricos e a população sofrendo com a piora na qualidade dos serviços prestados. 


A Sabesp é a maior empresa de saneamento do Brasil e uma das maiores do mundo, e vem batendo recordes de lucratividade ano após ano. Mesmo assim, o governador Tarcísio de Freitas – junto com os grandes tubarões da Faria Lima – decidiu entregar a empresa para a iniciativa privada. Tudo feito sob os aplausos de uma imprensa historicamente comprometida com a agenda privatista.


O governo de São Paulo recebeu 14,8 bilhões de reais por 32% das ações da companhia. Agora, com apenas 18,3% do capital total, o governo perdeu o controle da empresa. Quem passa a dar as cartas é a Equatorial Energia, que arrematou a estatal com ações 22% abaixo do valor de mercado. Uma pechincha! 


A empresa pagou R$ 67 por cada ação da Sabesp e, no mesmo dia, como uma dessas mágicas que só acontecem no mercado financeiro, o valor da ação pulou para R$ 82. A explicação dos faria limers para a valorização repentina é um velho cliché: o mercado precificou os ganhos que a empresa terá com uma gestão mais moderna e eficiente. Trata-se de uma falácia que ficou evidenciada pelas recentes privatizações de serviços essenciais.


Se levarmos em conta que essa é a primeira grande atuação da empresa na área de esgoto e abastecimento de água, a fé cega no aumento da eficiência pós- privatização torna-se ainda mais ridícula. 


Lembremos o exemplo da Enel em São Paulo, a empresa que comprou a Eletropaulo prometendo eficiência, mas presta um serviço precário. Graças às demissões em massa, terceirização, precarização do trabalho e redução drástica nos custos operacionais, boa parte das cidades da Região Metropolitana de São Paulo sofreu 120 horas de apagão no ano passado. O serviço piorou, mas o lucro dos acionistas está garantido.


Eficiência sem experiência no setor?


A Equatorial é uma empresa especializada no setor elétrico, sem praticamente nenhuma experiência em saneamento básico. A companhia presta esse tipo de serviço apenas em algumas cidades do Amapá, que não tem nem 1 milhão de habitantes. Vale lembrar que o estado sofreu com um dos maiores blecautes do país em 2020. Na ocasião, quase 800 mil pessoas ficaram sem energia por 22 dias, afetando 15 dos 16 municípios do estado.


O estado é considerado pelos diretores da empresa como um "laboratório" para novos negócios no setor. Isso significa que a prestação de um serviço fundamental para quase 30 milhões de paulistas foi repassada para uma empresa sem expertise na área. Claro, com a privatização sacramentada, a Sabesp deixa de ter como objetivo principal a prestação de um bom serviço para a população para se tornar uma empresa que prioriza a geração de lucro para os acionistas. 


A falta de capacidade técnica e experiência para comandar um negócio desse porte torna-se mero detalhe para os donos da empresa e para o governador. 


É curioso notar que a Equatorial foi a única empresa a participar da concorrência. Já entrou em campo com o jogo ganho. Para poder participar, as empresas interessadas tiveram apenas 3 dias para se inscrever no processo de licitação e apresentar um grande volume de documentos. Nenhuma empresa deu conta dessas exigências, apenas a Equatorial, o que ajuda a explicar a falta de concorrência.


Mais curioso ainda é saber que até sete meses atrás, a presidente do Conselho de Administração da Sabesp fazia parte do conselho da Equatorial. Vejam que coincidência formidável! O fato em si não é ilegal, mas é de uma imoralidade absoluta, indiscutível. Infelizmente, isso não foi o suficiente para motivar a indignação dos quase sempre indignados colunistões da grande imprensa. Reinou o silêncio nas páginas da Folha e nos programas da GloboNews. 


Cobertura positiva da imprensa


O mercado financeiro parece ter o alvará do jornalismo mainstream para ignorar questões éticas. Essa mudança de lado do balcão é algo comum nos processos de privatização. Como não lembrar de Elena Landau, que participou ativamente das privatizações do governo FHC e logo depois foi trabalhar com o Opportunity, o banco de Daniel Dantas que havia acabado de comprar parte da Telebrás


Este último personagem, aliás, está presente também na privatização da Sabesp. Quem controla a Equatorial é justamente o Opportunity do senhor Daniel Dantas. Veja como é pequeno o mundinho do mercado financeiro!


Como de praxe, a cobertura da venda da Sabesp na imprensa foi amplamente positiva. A Folha, que hoje, junto com a Globo, é a principal porta-voz dos interesses do mercado financeiro, fez uma cobertura sem muito alarde e ignorou as vozes críticas. 


Na semana anterior à privatização, o jornal cometeu essa manchete: "Privatização da Sabesp chega à reta final e deve tornar empresa mais eficiente, dizem analistas". Não preciso dizer que todos os analistas consultados jogam com a cartilha neoliberal debaixo do braço. 


Essa mesma abordagem pró-mercado esteve presente em todos os processos de privatização anteriores. Os grandes conglomerados de mídia são parte do mercado financeiro e estão alinhados às pautas privatistas da direita e da extrema direita. 


Não existe lugar para opiniões de trabalhadores, sindicalistas e progressistas quando o assunto é privatização. Apenas os analistas comprometidos com o capitalismo financeiro e improdutivo brilham nas manchetes. Enquanto isso, países como EUA, França, Reino Unido e Alemanha reestatizaram os serviços de água e saneamento básico depois de péssimas experiências com as privatizações.


A venda da Sabesp é um escândalo. Não apenas pela falta de transparência do processo, mas por reverter muito pouco aos cofres do estado e entregar a gestão da água, um bem essencial à sobrevivência, nas mãos de meia dúzia de abutres do mercado financeiro que só visam lucro. 


É um grande roubo do dinheiro público, feito de forma legalizada e ovacionado na grande imprensa como um avanço do país rumo à modernidade. De quebra, Tarcísio de Freitas fortalece os laços com o mercado financeiro, ganha ainda mais simpatia da grande imprensa e, assim, vai construindo o personagem para as próximas eleições presidenciais: o tecnocrata moderno, centrista e civilizado. Será o lobo fascistoide em pele de cordeiro moderado.  


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