Embora tenha escrito As origens do totalitarismo em 1951, a filósofa política Hannah Arendt tinha o número de Marjorie Taylor Greene, QAnon e a maior parte do Partido Republicano, quase até a última casa decimal. Em nenhum outro lugar se encontrará uma antecipação e explicação mais arrepiantes da conspiração perturbada e resiliência surpreendente do Trumpismo.
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Scott Remer publicou em locais como In These Times, Africa Is a Country, Common Dreams, OpenDemocracy, Philosophy Now, Philosophical Salon e International Affairs.
terça-feira, 7 de setembro de 2021
Independência do Brasil: impulso para a separação partiu de Portugal
Ao semear sentimentos exclusivistas de um e outro lado, a nação matou o Império. Dividia-se a “nação portuguesa de ambos os hemisférios”, desfazia-se o sonho do “grande e poderoso império” luso-brasileiro. E abria-se também, a partir daí, a grande via do estranhamento e da (in)comunicação entre Portugal e o Brasil que persiste até hoje.
Carlos Fino
Foi em Água de Mininos,/ Na Bahia, à flor do mar, /Que o português percebeu
Que isto de ser brasileiro/ É questão de começar
Vitorino Nemésio, Nove Romances da Bahia - 1968
Por mais paradoxal que possa parecer, por contrariar ideias feitas muito divulgadas e naturalizadas no senso comum, num primeiro momento (1820), foi Portugal que tentou libertar-se do Brasil, pelo menos de uma situação considerada asfixiante e até humilhante em termos nacionais.
Tudo começou em 1807, com a primeira invasão francesa e a transferência da Corte para o Rio de Janeiro — movimento sem precedentes na história das monarquias e dos impérios europeus. A subsequente abertura por D. João VI dos portos brasileiros “às nações amigas” (leia-se Inglaterra), inaugurou, logo em 1808, uma dinâmica comercial em tudo desfavorável à antiga metrópole. Por outro lado, apresentada e justificada como “provisória” ditada que era — literalmente — por motivo de força maior, a transmigração da Corte para a América tendeu, desde o início, a consolidar-se, lançando pesada sombra de dúvida sobre o futuro do Portugal europeu, agora administrado pelo Conselho de Regência e sob a batuta militar do general inglês William Beresford.
Com o passar do tempo, instalados os órgãos centrais de governo no Rio de Janeiro, os interesses dos portugueses transmigrados foram-se enraizando, apontando no sentido de que a Monarquia estava cada vez mais inclinada a consolidar-se definitivamente na América. E até eventualmente a desinteressar-se do país original, aquele “tão desgraçado, como insignificante pedaço de terra”, como nos dá conta, nas suas Cartas, o antigo ministro de D. João VI, Silvestre Pinheiro Ferreira, e como confirmam testemunhos de políticos e diplomatas da época. De acordo com testemunho do cônsul austríaco no Rio de Janeiro, tendo ele, em 1811, feito notar ao Conde da Barca, que conviria a Corte não se alhear excessivamente de Portugal, o que poderia levar à sua separação, disse-lhe o ministro de D. João VI que o governo não só estava preparado para tal eventualidade como isso não o assustava, pois de bom grado renunciaria à Europa e se tornaria americano...
Este era o caminho que as coisas levavam, gerando cada vez maior descontentamento na antiga metrópole e acabando por contribuir para a eclosão da Revolução de 1820. No seu Manifesto à Nação, os liberais justificam a revolta precisamente com a ideia “do estado de Colónia, a que Portugal em realidade se achava reduzido”, o que “afligia sobremaneira todos os cidadãos, que ainda conservavão, e prezavão o sentimento da dignidade nacional”, acusando o governo de D. João VI instalado no Rio de Janeiro de desfavorecer sistematicamente a antiga metrópole e responsabilizando-o pela crise que o país atravessava em todos os domínios.
Que o primeiro impulso para a separação partiu de Portugal confirmam-no também as declarações de deputados brasileiros às Constituintes. Mesmo já adiantado o ano de 1822, quando as diferenças corriam soltas e lavrava um clima de ressentimento e confronto entre parlamentares de um e outro lado do Atlântico, ainda assim, o padre Diogo Feijó, deputado por São Paulo, afirmava “à face da nação (portuguesa) e do mundo inteiro” que não havia propriamente nas Cortes uma representação nacional brasileira: “Não somos deputados do Brasil (...) porque cada província se governa hoje independente. Cada um é somente deputado da província que o elegeu e que o enviou.”
Cada vez mais ciosos de recuperarem a centralidade perdida desde a saída da Corte, os deputados da metrópole insistiram, entretanto, no regresso de D. Pedro e na subordinação a Lisboa das juntas de governo formadas no Brasil a seguir à viragem liberal. Os ânimos exacerbaram-se e, face ao desacordo, Manuel Fernandes Tomás profere o seu célebre “Adeus, Senhor Brasil”: das duas uma — dizia ele — ou eles (brasileiros) querem isto (a união) ou não. “Se querem hão de sujeitar-se às ordens do Governo, se não querem acabem com isto, digam que não querem. Porventura Portugal há de fazer mais sacrifícios ao Brasil?”. Meses depois, D. Pedro, referindo-se às Cortes, chama-lhes “pestíferas” e em carta ao pai, entretanto regressado a Lisboa, acentua, indignado: “De Portugal não queremos, nada... nada!”
Para os portugueses deste lado do Atlântico, o Brasil transformava-se no “filho ingrato”, enquanto para os portugueses do lado de lá Portugal era o “pai tirano”. Seria talvez mais apropriado considerá-los irmãos desavindos, sobretudo quando se considera a origem e formação das elites brancas dirigentes num e noutro hemisfério, que então entraram em conflito pela disputa da hegemonia.
De qualquer forma, estava consumada a rutura: ao semear sentimentos exclusivistas de um e outro lado, a nação matou o Império. Dividia-se a “nação portuguesa de ambos os hemisférios”, desfazia-se o sonho do “grande e poderoso império” luso-brasileiro. E abria-se também, a partir daí, a grande via do estranhamento e da (in)comunicação entre Portugal e o Brasil que persiste até hoje.
Fontes:
ALEXANDRE, V. (1993). Os sentidos do império – questão nacional e questão colonial na crise do Antigo Regime português. Porto: Edições Afrontamento.
CALDEIRA, J. (1999). Diogo Antônio Feijó. São Paulo: Editora 34.
MONTEIRO, T. (1927). História do Império – A elaboração da independência. Rio de Janeiro: F. Briguiet & Cia Editores.
OLIVEIRA, E. R. (2005). A ideia de império e a fundação da monarquia constitucional no Brasil (Portugal-Brasil, 1772-1824), In: Tempo,vol. 9, n.º18, pp. 43-63. Niterói: UFF.
Depois do fracassado desfile de tanques de guerra, Bozo conclama “seu” exército, as polícias militares e a multidão de apoiadores de bota e berrante a manifestar, dia 7, seu apoio a outro projeto de golpe
Já repararam? Toda vez que a aprovação do presidente começa a, digamos, perder potência, ele convoca uma motociata. Tivemos uma quarta (ou quinta?), no ano que corre – o que indica que a força do homem que desgoverna o país anda bastante ameaçada. Nessas horas, nada como ter uma máquina possante entre as pernas.
Afinal, o que é uma motociata? Um monte de homens que, montados em objetos barulhentos, tentam intimidar seus opositores e ostentar a própria potência. Verdade que o sólido “corpo” da motocicleta tem que ficar firme entra as pernas de quem as pilota. Compreendo a ilusão de potência causada, mesmo entre mulheres, por essa inocente conjunção. Além disso, motos fazem barulho, a depender do uso do acelerador de quem pilota. Mas, ora essa: a potência das motocicletas não necessariamente se transfere a quem está em cima delas. As motociatas do presidente são um recurso que lembra a birra da criança contrariada: esperneia e berra o quanto pode, mas não consegue convencer o adulto a fazer o que ela quer.
No caso, os supostos “adultos” disponíveis não são lá muito confiáveis. A oposição, num congresso liderado por Lira e Pacheco, lembra a mãe que dá logo o doce à criança para não ter que enfrentar a tal birra. Cabe a nós, os 64% de brasileiros que desaprovam o presidente, o papel dos adultos na sala. Não sei se estamos preparados para tanto. Ainda nos vemos atônitos, tentando entender como isso foi acontecer e como devemos agir. Intimidar o birrento é inoperante. Não somos capazes de imaginar maldades e ameaças a altura das que ele e de seus seguidores já praticam há quase dois anos.
Como foi mesmo que ele foi parar no posto para o qual não estava preparado? Ah, claro: a corrupção. Quem leu Brasil, uma Biografia, de Heloisa Starling e Lilian Schwarz, sabe que a corrupção está incrustrada no Estado brasileiro desde a monarquia. Foi o pretexto (não a causa justa) para prender Luís Inácio e tentar desmoralizar o Partido dos Trabalhadores. Então me expliquem por que agora, com dezenas de indícios na família Bolsonaro, ninguém mais se importa com a corrupção? Gente hipócrita.
Moro era o herói do Brasil?[1] Por que então as condenações que passaram por sua pena, na Lava Jato – a começar pela de Luís Inácio Lula da Silva – estão hoje sob suspeição?
Agora inventaram um pretexto novo para desmoralizar nossa esquerda prá lá de light: o extremismo bolsonarista – cujos exemplos mais grotescos tentarei enumerar logo adiante – é o contraponto a seu antípoda à esquerda, o extremismo petista. Parte da população repete esse mantra bovinamente. A imprensa liberal faz tentativas patéticas de peneirar uma “terceira via” entre as opções candidatos que não chegam a dois dígitos nas intenções de voto. Uma parte mais esclarecida da burguesia resolveu declinar de sua preferência pelo presidente vexatório e violento, desde que surja a tal terceira via entre os dois extremos. Desde que única alternativa não seja, tipo assim… o extremista Lula. Seria cômico, se não fosse trágico.
Ora, senhores. Seria ofensivo chamá-los de desinformados ou pouco inteligentes. Talvez prefiram que eu os considere apenas de má fé. Por uma feliz coincidência, isso é exatamente o que me parece: má fé. Lula, extremista?
Talvez não estejam se lembrando da Carta ao Povo Brasileiro, na qual Lula, na campanha de 2002, garantiu que não mexeria no lucro dos bancos. Parte de seus apoiadores de esquerda quis pular do barco naquele momento. Nosso perigoso extremista reuniu-se com o grupo (ao qual fui agregada, embora não quisesse pular do barco) e nos deu uma aula de materialismo histórico. Conhecia o país que queria governar. Não sonhava com uma sociedade pronta para o socialismo – o qual, vale esclarecer, nunca esteve no seu horizonte – e sim com uma sociedade que, de conservadora e vergonhosamente desigual, pretendia em seu governo começar a transformar atacando (perdão: não consigo nenhum substituto a altura para o bom e confiável gerúndio) seu pilar mais podre: a tremenda desigualdade social. Resumiu seu projeto – lembram-se? – assim: em meu governo quero conseguir que cada brasileiro tome café da manhã, almoce e jante. Perigosíssimo, não?
Bem, talvez a modesta proposta do candidato do PT cause algum desconforto, alguma instabilidade emocional, digamos, para o 1% dos brasileiros que detém 50% da riqueza que o Brasil produz.[2]
Para um país que escravizou africanos durante três séculos, isso parece tão extremista quanto propor uma revolução. Para um país que aboliu a escravidão, sem conceder nenhuma reparação aos descendentes de africanos trazidos para cá a força, mantidos em cativeiro e punidos a chicotadas, pareceu ameaçador a uma parte da elite o fato de o governo Lula promover – através da lei das cotas – que parte dessa gente estudassem nas mesmas universidades que seus filhos. E o Bolsa Família, então, que elevou milhões de pobres às classes médias? Escutei mais de uma vez, em várias filas de embarque, pessoas reclamando das famílias de aparência modesta que faziam sua primeira viagem de avião. “Esse aeroporto está parecendo uma rodoviária”!
A sucessora de Lula, Dilma Roussef – ex-presa política e vítima de tortura – ainda teve o desplante de conseguir que o congresso votasse pela instauração de uma Comissão Nacional da Verdade. Sim, o Brasil foi o único país, dentre os que sofreram ditaduras militares na América Latina – a só aprovar a criação de uma CNV três décadas depois da redemocratização. Não conseguimos apurar quase nada, pois os militares que convocamos a depor tinham direito de não falar nada – e assim fizeram.
Mesmo assim, a CNV incomodou muita gente. Em uma das audiências da Comissão na Câmara dos Deputados o atual presidente fez uma performance macabra ao homenagear o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra. O mesmo que torturou a presidente. Os colegas não acharam que o gesto tenha ferido o decoro parlamentar. Talvez tenham perdoado o que teria sido só uma reação emocional diante do extremismo da presidenta que criou uma Comissão para apurar, com três décadas de atraso, os crimes cometidos pelo Estado Brasileiro no período 1964-85. A homenagem de Bolsonaro ao Ustra ficou por isso mesmo. Tudo o que sofremos hoje terá começado ali?
Dilma não conseguiu aprovar que a Comissão da Verdade – como na Argentina, Uruguai e Chile – fosse também da Justiça. Teve que abrandar seu projeto. Mesmo assim, incomodou. Pessoas desinformadas perguntavam se não investigaríamos “o outro lado”. O lado dos “terroristas”. Não adiantava esclarecer que este “lado” não era simétrico ao outro, pois crimes comuns não devem ser equiparados a crimes de Estado. Nem adiantava argumentar que componentes do “outro lado” já tinham sido presos, torturados e, em muitos casos, assassinados na prisão. Corpos de 126 desses jovens nunca foram encontrados. São, até hoje, desaparecidos políticos.
Diante de tais “extremismos”, não é de se espantar que depois de 14 anos de governos petistas o Brasil fosse à forra elegendo um capitão reformado (por indisciplina) adepto da tortura. Isso não escandalizou a maioria dos seus eleitores. O problema é que, bem… ele não tem a menor ideia do que significa governar um país. O rictus cada vez mais tenso de sua expressão revela que está desnorteado e amedrontado.
Não, essa não uma notícia alvissareira.
Depois do fracassado desfile de tanques de guerra tentando intimidar os deputados que votariam contra a proposta do voto impresso, Bozo conclama “seu” exército, as polícias militares [3] e a multidão de apoiadores de bota e berrante a manifestar, dia 7, seu apoio a outro projeto de golpe. O congresso continua bovino. Talvez pensem que seja um tanto extremista a iniciativa de tentar barrar o homem que promete um banho de sangue no feriado da Independência, depois de ter sido responsável por quase 600 mil mortes por falta de providências sérias contra a Covid-19.
Sem saber o que fazer com o poder que lhe foi atribuído, o presidente tenta demonstrar força prometendo direito ao porte de fuzis para seus apoiadores. Nem por isso se considera extremista; mas alerta seus opositores de que “tudo tem limite”. Onde já se viu promover uma eleição com os mesmos métodos transparentes utilizados desde a redemocratização? Métodos que, aliás, o elegeram em 2018, com uma ajudazinha da disseminação de mentiras (chamadas, elegantemente, de fake News) contra Fernando Haddad, candidato do PT.
A investigação, antes tarde do que tarde demais, dessa fraude eleitoral, corre o risco de também ser considerada uma iniciativa extremista, a ser enfrentada com ameaças de golpe iminente. É o que trama o ex-capitão, que como mandatário da nação detém o comando do exército: o mesmo do qual quase foi expulso em 1986 por insubordinação. Salvou-se pelo temor, entre os de alta patente, de que sua punição provocasse uma insurreição entre militares de patentes mais baixas.
No outro “extremo” do cenário eleitoral encontra-se, com mais chances do que o ex-capitão, Luís Inácio Lula da Silva. A julgar pelas pesquisas de intenção de voto, no momento que escrevo, ele derrotaria Bolsonaro por larga vantagem no segundo turno. Que perigo, pessoal. A volta dos descendentes de escravos aos bancos das universidades. A volta dos pobres nos aviões. A volta de remuneração digna para os trabalhadores. A volta de alguma leveza, alguma alegria, alguma esperança de melhora nesse país hoje dominado pelo ódio de classe, o racismo, a miséria e o desencanto.
Posso apostar que muitos de vocês anseiam pela tal terceira via. Mesmo que não tenha projeto de via nenhuma. Antes que a motociata anunciada para o 7 de setembro faça outro “Búúú!” nas nossas caras assustadas.
*Maria Rita Kehl é psicanalista, jornalista e escritora. Autora, entre outros livros, de Ressentimento (Boitempo).
Notas
[1] Certa vez vi numa banca de jornal um livro com a cara quadrada do ex-juiz com esse título: Moro, o herói do Brasil.
[2] Relatório do banco Credit Suisse sobre a riqueza global: no Brasil, 1% dos ricos detém 44% da riqueza. Citado por Marilene Felinto em sua coluna na Folha de São Paulo de 29 de agosto. A grande ameaça de um novo governo Lula seria de que a vantagem desproporcional dos ricos voltasse a cair, como em 2010, para 40,5%.
[3] Uma das recomendações da Comissão da Verdade era pelo fim da militarização das polícias – essa excrescência da Ditadura de 1964-85.
quarta-feira, 14 de julho de 2021
Uma colisão em câmera lenta
Quando se fala que o Brasil está a perder sua democracia, deveríamos começar por lembrar do fato de ser impossível perder o que você nunca teve
Faz parte de nosso imaginário de catástrofes aquelas cenas de acidentes automobilísticos em câmera lenta, feitas com manequins no lugar de seres humanos. Você observa o carro lentamente bater contra um muro para, em uma singular mistura de tragédia e assepsia, tornar-se o espectador transcendente do choque frontal quebrando os vidros, prensando a lataria e arremessando os corpos de plástico para fora. A função desses espetáculos pedagógicos é pretensamente nos acordar para o perigo de nossas condutas automobilísticas enquanto ainda há tempo, enquanto ainda não ocupamos o lugar daqueles manequins impessoais, produzidos para passivamente serem destruídos. Mas eles acabavam por alimentar um certo fascínio pela destruição que parecia a espreita de cada pisada mais funda no acelerador.
A história brasileira recente pode ser descrita dessa forma: como uma colisão em câmera lenta. Vivemos em uma espécie de expectativa difusa de explosão, que alguns lutam por dissipar o mais rápido possível fazendo gestos e ações próprios de uma “vida normal” cuja realidade é da ordem da lembrança. A cada dia que passa é mais evidente que a única questão realmente relevante é quando vamos colidir.
Pois seria o caso de insistir agora como o Brasil inovou nas últimas décadas criando uma espécie de democracia geograficamente limitada. Nas regiões onde vive a classe média e alta, tal democracia parecia existir, com sua garantia elementar da integridade dos corpos. Mas bastavam alguns quilômetros em direção às periferias para entrarmos em uma terra na qual policiais invadem casas sem mandado, pessoas desaparecem pelas mãos de milícias, crianças morrem por balas perdidas, sujeitos não podem registrar uma ocorrência em uma delegacia sem temer alguma forma de retaliação vinda das próprias pessoas que deveriam protegê-las. Ou seja, nessas áreas a “democracia” nunca existiu, e nenhum governo viu como tarefa sua modificar tal partilha. Quando se fala que o Brasil está a perder sua democracia, deveríamos começar por lembrar do fato de ser impossível perder o que você nunca teve.
Nesse sentido, ao menos agora a classe política poderia nos poupar de vender mais uma rodada de ilusões a respeito da necessidade de nos livrarmos de uma extrema-direita incontrolável para voltarmos ao respeito aos limites mínimos de uma “pacto democrático” que teria existido por esses terras no período pós-ditadura militar. Uma das patologias nacionais é essa crença de que um escândalo, uma eleição, um pacto pelo alto irá nos tirar da rota da colisão, irá recolocar as coisas nos trilhos e nos fazer voltar a sonhar e cantar. Talvez fosse o caso de dizer: dessa vez, isso provavelmente não vai ocorrer.
É possível dizer isto porque, depois de um certo tempo, dá para adivinhar a lógica de Jair Bolsonaro e de seus fieis. Ela se resume a algumas ações básicas. A primeira delas é sua incrível capacidade de, diante de uma crise, sempre dobrar a aposta e correr para frente. Como já se disse antes, pode parecer loucura, mas tem método. Ele sabe que, caso perca as eleições do ano que vem, provavelmente a diferença não será grande. E nesse cenário, uma confusão à la Trump já está no script.
Bolsonaro provavelmente tem razão. Ele conta com um repique da economia devido à retomada de demandas globais por matérias-primas depois do desconfinamento geral. Ele sabe que se sobreviver os próximos meses, poderá contar com uma economia em melhores condições. Depois, é contar com a secular tendência dos “liberais” latino-americanos a abraçar governos autoritários quando vem o povo batendo as portas do poder. Poderíamos chamar isso de “complexo de Vargas-Llosa”. Algo que, diga-se de passagem, não tem nada de muito complexo.
Um liberal latino-americano é alguém que pode até aprender a escrever e ganhar um prêmio Nobel, alguém que pode até fazer palestras mundo afora para falar das riqueza de seu povo mas que, em situações onde as clássicas partilhas de poder e riqueza são questionadas, sabe muito bem qual é seu lado. Normalmente, é o lado da filha do ditador ou do coronel que “fala mais que devia” mas que entrega tudo o que promete (“reforma” trabalhista, previdenciária, fiscal etc.). Um liberal latino-americano conhece bem sua classe de origem e se tem algo que ele desconhece é raiva em relação a sua própria classe e meio. Quem confia em frente ampla devia ler um pouco mais Vargas-Llosa.
Já a segunda ação típica desse governo é colocar as Forças Armadas cada vez mais dentro do cenário político nacional. Pergunto-me por quanto tempo ainda vão nos vender a narrativa do governo sempre às voltas com conflitos entre as Forças Armadas e o presidente. Essa narrativa faz parte da estratégia de preservação das Forças Armadas. Mas, para além da narrativa, a verdadeira face fardada foi mostrada semana passada, com a nota ameaçando a CPI e o poder legislativo. Nada muito diferente do senhor Villas-Boas mandando tuítes com ameaças contra o STF anos atrás. De toda forma, quem acredita que as Forças Armadas entregarão os 7.000 cargos que ocupam caso percam a eleição deveria lembrar o que significa situações nas quais um setor do poder constitui um Estado dentro do Estado.
Ou seja, é claro que há duas saídas para a oposição. A primeira é deixar de ser oposição, ou seja, ser apenas oposição à pessoa de Jair Bolsonaro e não aos interesses que ele defende tão bem. Em nome da “governabilidade” possível seremos obrigados a nos contentar com um horizonte ainda mais miseravelmente rebaixado de expectativas. Então teremos um governo que não reverá nenhuma derrota da classe trabalhadora, nem tocará na natureza “moderadora” do poder militar.
No entanto, é difícil não lembrar aqui de um filme de Sophia Coppola chamado Maria Antonieta. Como o título indica, é um filme sobre a rainha Maria Antonieta, aquela dos brioches. Durante todo o filme, acompanhamos Maria em suas festas ao som de Siouxsie and the Banshees, sua liberação sexual, sua afirmação de si, até o momento em que algo que não deveria estar lá aparece e muda tudo. Mas aparece não como um personagem. Na verdade, aparece como um poder de decomposição, como uma força sem figura que tudo desaba. Era o povo de famintos, de empobrecidos, de enlutados, cuja única presença no filme é como o som emudecedor que Maria deve ouvir da sacada do Palácio de Versalhes. Bem, imaginar que esse povo que já demonstrou sua força na Colômbia, no Chile, não aparecerá por aqui pode ser um cálculo muito ruim. Mas se a oposição política tentar colocar-se a seu lado, ela perderá seus novos amigos da Frente Ampla. Amigos que, podem apostar dois vinténs, irão abraçar novamente Jair Bolsonaro nessa situação. Isso talvez explique por que o Brasil tem uma oposição que, no fundo, reza para que nada ocorra. Mas como aprendemos nesses filmes de acidentes automobilísticos, no final o carro bate.
Nessas circunstâncias, melhor seria admitir de vez que o carro baterá e que não há como salvá-lo. O Brasil que conhecemos acabou. Forças efetivas de oposição estariam a fazer de sua bandeira uma profunda refundação institucional do país, assim como formas de desmonte da estrutura necropolítica de seu estado e luta real contra as classes responsáveis pela concentração econômica e espoliação geral. Essas mesmas classes que enriqueceram com a pandemia e que sonham em fazer turismo espacial nas novas naves de Robert Bransom ou Jeff Bezos.
Com 36 anos, demonstrou em ‘O mundo da Antiguidade Tardia’ que a tese da decadência de Roma era falsa. Para muitos, é o maior historiador vivo em língua inglesa. Falamos com ele em sua casa em Princeton sobre sua trajetória, o abandono das ciências humanas e a tendência política de manipular o passado para incutir o medo
O historiador irlandês Peter Brown em sua residência em Princeton, New Jersey (EUA), em 29 de abril.JOANA TORO
O gosto pelaastronomia que Peter Brown (Dublin, 85 anos) desenvolveu quando criança foi um presságio da tarefa queo consagraria como historiador: o afã de esquadrinhar na escuridão os pontos de luz quedefinem a Antiguidade tardia(200-700 depois de Cristo), esse período durante o qual ocorreu o colapso de Roma, ganharam forma as religiões do livro e o cristianismo foi se estabelecendo na Europa. Um período que ganhou status acadêmico graças, precisamente, aos seus estudos.
A reedição em espanhol de O mundo da Antiguidade Tardia, uma de suas obras magnas, é uma oportunidade de redescobrir não só essa época erroneamente considerada sombria e seus tentadores paralelos com a atualidade, como também de rever a carreira do professor emérito de Princeton que antes lecionou em Oxford, sua alma mater, até 1975, do titã capaz de se rebelar contra Edward Gibbon, cuja tese da ruptura —a bem-sucedida, mas pouco justificada ideia de decadência e queda do Império Romano— teve uma releitura radical no conceito de transformação do Brown.
Venerado por gerações de historiadores, a jornalista o encontra em sua residência de Princeton suscita uma ansiedade pertinente. Assim como tentar descobrir que presente deseja alguém que tem tudo, o que se deve perguntar a um erudito, a um sábio de fama internacional? Tanta riqueza de conhecimento impõe respeito. Mas a cortesia do professor, que aguarda a chegada do táxi para me acompanhar até o interior de sua casa —luminosa e plácida, com torres de livros, porcelanas, miniaturas e cortinas de cretone—, desfaz qualquer acanhamento.
Na soleira, uma mesinha auxiliar coberta de azulejos que reproduzem os motivos florais de Iznik, a cerâmica do período otomano, faz o visitante valorizar sua beleza enquanto pronuncia o topônimo. “Iznik!” e, abracadabra, predispõe ao diálogo. A primeira referência, graças à cerâmica, é a Turquia, um país que Brown e sua esposa, Betsy, conhecem muito bem, como parada obrigatória para quem estudou Bizâncio em todas as suas formas. A Turquia voltará reiteradamente à conversa. “Qual sua opinião sobre Erdogan? Como vê a situação do país?”, pergunta logo o professor, em um exercício de maiêutica. Betsy lembra que Peter estudou turco, “esse idioma tão bonito, com um som lindo”, comenta ele com satisfação. Sobre seu vasto dom de línguas ele falará, entre divertido e modesto, mais tarde. “Agora estou aprendendo etíope”, conta, sem dar importância a isso. “Mas não o moderno, o antigo.”
Para um historiador total como Brown, herdeiro em fôlego de Fernand Braudel e discípulo de Arnaldo Momigliano, que atualidade tem um livro escrito há décadas? “Este livro é de 1971. Obviamente, minhas inquietações mudaram. A razão para me dedicar ao que agora chamamos de Antiguidade tardia era o desejo de estudar uma sociedade que tinha conservado suas raízes no mundo antigo, com o latim e o grego como línguas dominantes, mas ao mesmo tempo tinha começado a mudar. Era o estudo da mudança em uma sociedade inusualmente resistente. Costumávamos descartar esse período por ser um período de ruptura total. Não gostávamos de nada que víamos dele”, lembra Brown sobre a época que ele reabilitou epistemologicamente.
O professor Brown na biblioteca de sua casa em Princeton, em abrilJOANA TORO
“Essa foi minha principal motivação: entender a natureza exata de certas crises, como as mudanças no Governo do Império Romano nos séculos III e IV. Queria descobrir se tinham sido desastrosas ou, na verdade, mudanças de ajuste da evolução; um equilíbrio entre a continuidade e a descontinuidade, a fragilidade e a resistência. Um exemplo: o surgimento de novos estilos de vida aristocrática nas províncias do Império Romano. Devo muito à arqueologia espanhola, aos grandes mosaicos de lugares como Carranque, que conheci naquela época. Achados que nos diziam: ei, as coisas não desmoronaram, mudaram, o foco já não está nas urbes”, a quintessência do mapa-múndi romano junto com sua malha viária espalhada como uma teia de aranha entre metrópoles.
“Acredito que uma das principais preocupações no campo da Antiguidade tardia era minar a noção fácil das invasões bárbaras”, acrescenta. A tentação de ver uma transcrição desse fenômeno para o da imigração irregular é fácil, tanto para um discurso tão raso como o dos populistas a granel como para esse outro, mais rebuscado, que propõe a perversa teoria da substituição. “Se você estiver olhando constantemente para uma imagem falsa do passado, procurando o reflexo de sua própria imagem, isso só o levará pelo caminho do racismo, do obscurantismo. Da xenofobia. Um bom exemplo são as invasões bárbaras. Todo mundo está ciente de que há problemas na Europa por causa da imigração em massa, mas é um terrível abuso histórico tratar um como uma repetição do outro”, explica Brown. Além disso, acrescenta, “o islã jihadista tragicamente protagonista hoje não tem nada a ver com o do profeta Maomé, com o islã de 300 anos atrás, são totalmente diferentes”.
Seu primeiro livro foi, no entanto, uma biografia de santo Agostinho, o norte-africano que o erudito destronou da santidade intitulando sua obra simplesmente como Augustine of Hippo: A Biography (lançada em português como Santo Agostinho: Uma Biografia). “Uma figura muito latina, um homem que representava um cristianismo imensamente opressivo. Lembro-me das críticas em espanhol ao meu ensaio; de como os europeus, principalmente os de origem católica, ainda consideravam Agostinho como parte de seu próprio mundo.”
Por intercessão intelectual do santo, Brown superou o etnocentrismo —ou seja, o eurocentrismo tradicional, que considera a civilização clássica como única fonte do Ocidente— e soube olhar em volta, outra de suas grandes conquistas como historiador. “Teria sido muito fácil continuar estudando só o cristianismo, mas me deparei com as descobertas da arqueologia, aprendi siríaco e hebraico e abri uma área cuja cultura chegava então até as cidades gregas da costa do Egeu, como Éfeso. Continuavam sendo cidades impressionantes, mas foram sendo criadas outras grandes obras, como Santa Sofia em Istambul.”
Portanto, prossegue ele sem abandonar o uso do plural de modéstia e com um levíssimo gaguejo ocasional, imperceptível, “vimos que havia um mundo lá fora e que não era possível escrever sobre ele como se tivéssemos de fechar as cortinas do Império Romano; era uma vida nova para o Império Romano, inclusive o profeta Maomé e o islã surgiram dessa cultura, não vieram do espaço exterior. Parte das raízes da Europa não está apenas na Europa. Também está no Oriente Médio e no sul do Mediterrâneo. Parte da riqueza da cultura europeia é, precisamente, sua abertura ao mundo. Em Santa Sofia, nos escritos dos Padres do Deserto...”.
Detalhe da biblioteca do Peter Brown em sua casa em Princeton. JOANA TORO / JOANA TORO
Brown é generoso na hora de destacar a contribuição de seus discípulos. Cita com carinho especial o espanhol Javier Arce e Jack Tannous, seu herdeiro em Princeton. Para o acadêmico, toda pesquisa é um grande investimento —em tempo, em conhecimento, em leituras: “Descobrir textos, ler com fluidez línguas como o árabe e o siríaco, é um trabalho duro, que precisa de um apoio adicional. Precisa de apoio institucional. Precisa de professores. Mas, quando você consegue, isso pode lhe dar uma visão muito mais rica e ampla do que as certezas estreitas”. Assim, sua opinião sobre o desdém com que alguns governos tratam as ciências humanidades é mais do que óbvia: “[Os políticos] estão mais preocupados com os custos de suas decisões. Estamos lidando com uma geração de políticos que carecem há muito tempo de uma educação humanista como a que nós tivemos. Não há nada mais trágico do que um homem que perdeu a memória”.
Sobre o julgamento da história, submetida ultimamente ao filtro da ultracorreção política —a demolição de estátuas de colonizadores e escravistas, por exemplo, depois de episódios de violência policial contra negros—, Brown, que passou parte de sua infância no Sudão colonial, onde seu pai era funcionário do Império Britânico, sustenta: “Não assumir a parte vergonhosa do passado é uma recusa a estar aqui, a ser adulto. Parte da identificação do adulto é o pertencimento a gerações anteriores. É como uma família, que nem sempre tem orgulho de seu tio ou seu avô... Qualquer pessoa madura deve assumir os membros anteriores de sua família, é um sinal de maturidade. Uma espécie de resiliência. Júlio César é um exemplo. Matou milhões de pessoas. E o terrível é que sabemos disso porque ele publicou. Devemos então rejeitar totalmente o Império Romano porque foi baseado nisso? Não, temos de aplicar, suponho, o que agora chamamos de visão binocular para enfocar corretamente”. O mesmo vale para episódios como a escravidão na antiga Roma, que permitia o acesso sexual dos homens às escravas, e o sistema semelhante que existiu nas plantações do sul da nova América, lembra ele.
Todas as ideias trazidas por Brown na salinha onde, em cadeiras de balanço frente a frente, ocorre a conversa rendem bastante, até mesmo ao ponto de estabelecer uma linha direta entre a inconsciência ou a incúria da história e a ignorância subjacente ao que chamamos de fake news. “Esquecer é uma tragédia. Pode libertar certas pessoas das más lembranças. Mas acho que o problema são as lembranças pela metade. Não é que tenhamos aberto mão da memória histórica, é que diminuímos nossa capacidade de nos interpor e criticar as falsas memórias históricas. Não se pode dizer que estes políticos, o Brexit, Trump, tenham ignorado a história, eles simplesmente a deturparam. Sabemos como isso foi feito nos países fascistas, nos países nazistas, nos países comunistas, e hoje também nos islâmicos. Distorcer a história é ainda pior do que esquecê-la. O perigoso são as meias memórias que os políticos utilizam para avivar o ressentimento e os medos.”
Também é especialmente reveladora sobre a validade hermenêutica das ciências humanas —como elas ajudam a entender o mundo ao explicá-lo— sua experiência no Irã pré-revolucionário. “Fui ao Irã em 1974 e 1976, pouco antes da Revolução Islâmica [1979]. O Governo dos EUA queria saber o que estava acontecendo e entrou em contato com muitos professores em Berkeley, mas a maioria era especialista em desenvolvimento, o grande conceito dominante nos anos sessenta e setenta, e estudava, é claro, do presente. No santuário de Mashhad, tive uma sensação quase de pavor, de que um algo muito sombrio e possivelmente terrível iria acontecer. Os outros professores não perceberam nada por trás da fachada de país em desenvolvimento.” Porque um historiador é um bom jornalista, lembra com cumplicidade, assim como um bom jornalista deve conhecer a história.
O proverbial dom de línguas do Brown —aprendeu farsi no Irã; o armênio também está nos planos— apoia sua insistência na aprendizagem de “línguas europeias, não só latim e grego, muito úteis para a pesquisa, mas as línguas europeias, sem o conhecimento das quais a dimensão do mundo [em inglês] é rasa e plana. A cultura europeia é uma cultura multilíngue, e a força da Europa não é sua uniformidade, mas sua diversidade. Os alunos que não leem de forma natural o francês, o alemão, o italiano e o espanhol me preocupam, porque deveriam fazer isso”.
Como convencer que concluiu o ensino médio a estudar história? “Com a metáfora da viagem. Se você quer ver as pirâmides do Egito, ou conhecer Sevilha, por que não viaja no tempo? Viajar amplia a mente; a história não é apenas saber sobre o passado. Essa é uma visão estreita. Trata-se também de conhecer um mundo mais amplo, seja na atualidade ou no passado.”
Ao terminar a entrevista, e enquanto Peter Brown tira o carro para levar a jornalista até a estação, Betsy Brown mostra com respeito, na esquina, a casa onde viveu Albert Einstein enquanto lecionou em Princeton. A conversa terminou minutos antes com um caso de Oxford, quando o professor deu a seus estudantes um livro em polonês. “Mas também dei um resumo em francês”, acrescenta, como quem conta uma travessura. Os Browns oferecem um rápido passeio por Princeton que é outra lição de história, do local da batalha de 1777 ao estilo gótico de faculdades e da reitoria. “Woodrow Wilson [28º presidente dos EUA], que foi reitor”, conta Brown ao volante, divertido, “disse que era mais fácil governar o país do que a universidade”.