sábado, 14 de janeiro de 2017

O desmonte do sistema de Defesa Nacional


02/01/2017
Precisamos superar o nosso complexo de “vira-latas” e tomarmos consciência da importância geopolítica e estratégica do Brasil no conjunto das nações do mundo. Somos uma das maiores nações em termos geográficos e populacionais. Somos a sétima economia do mundo com um mercado interno de 204 milhões de brasileiros. Mas mais que tudo, somos um reserva de bens e serviços naturais como nenhum país do mundo possui em termos de terras férteis, de água doce, de florestas úmidas, de biodiversidade e de riqueza populacional pluri-etnica. Tal fato não passa desapercebido pelas potências que se arrogaram o poder de decidir o caminho por onde deve andar o planeta, o sistema-vida e o sistema-Terra. É por isso que nosso país, seu governo, as grandes empresas são vigiadas e espionadas. Ademais somos a grande potência do Atlântico Sul voltada para a África. Para onde irá o Brasil? Que posição tomará face aos problemas mundiais? Fará um caminho próprio, baseado na sua riqueza natural e histórica, influenciando outros países? Estas são as preocupações das potenciais que têm sob seu controle o processo de globalização . Transcrevemos esse artigo para nos alertar da importância que possuímos em termos de defesa de nossa soberania nacional. E também denunciar aqueles grupos e poderes que querem se alinhar a um dos poderes mundiais dominantes renunciando à construção de nosso próprio caminho e de nossa identidade nacional e desta forma dar uma contribuição à inteira humanidade. O estudo foi feito por um economista JOSÉ ALVARO DE LIMA CARDOSO, recomendado pelo nosso maior analista das políticas internacionais LUIS ALBERTO MONIZ BANDEIRA. Recomendo a leitura para melhorar nosso quadro de análise de nossa realidade nacional no contexto global: Lboff
*********************

Nesta altura dos acontecimentos até as pedras sabem que o interesse imperialista nas matérias primas do Brasil (petróleo, minerais, água, biodiversidade da Amazônia) foi um dos carros-chefe do golpe. No entanto, além do interesse econômico imediato – nas matérias-primas e na eliminação de direitos e redução de salários – o golpe tem decisivo componente geopolítico, com cada vez maiores evidências do envolvimento direto das forças de inteligência norte-americanas (CIA, FBI, NSA). Está cada vez melhor documento, por exemplo, o envolvimento da equipe da Lava Jato com estratégias montadas em instituições de inteligência dos EUA.

Ao contrário de 1964, quando a censura e a repressão impediam a circulação de informações, neste golpe, apesar da democracia ter sido restringida, está sendo possível denunciar suas entranhas enquanto ele se desenrola (apesar da blindagem da mídia). Sabemos, por exemplo, da relação de Sérgio Moro com a comunidade de informações dos EUA. Moro fez cursos no Departamento de Estado, dos EUA, em 2007. No ano seguinte fez um programa especial de treinamento na Escola de Direito de Harvard. Em 2009 participou da conferência regional sobre “Illicit Financial Crimes”, promovida pela Embaixada dos Estados Unidos. Foi treinado, segundo o historiador Moniz Bandeira, em ação multi-jurisdicional e práticas de investigação pelos estadunidenses. Inclusive em demonstrações reais, segundo o historiador Moniz Bandeira, de como preparar testemunhas para delação.

Tivemos a informação também, ainda antes do impeachment, que Sérgio Moro, e o procurador-geral da República Rodrigo Janot, atuam em parceria com órgãos dos Estados Unidos contra empresas brasileiras. E que Sergio Moro recentemente autorizou o compartilhamento da delação premiada do ex- diretor da Petrobras, Nestor Cerveró, com investigadores de Londres em processo contra a Petrobrás. Segundo informações divulgadas na imprensa, Sergio Moro tem autorizados conversas feitas diretamente com cada delator da Lava Jato e o Departamento de Justiça dos EUA, sem passar pelo Estado brasileiro, como prevê a lei. Ou seja, os responsáveis pela operação Lava Jato permitem o acesso a órgãos do Estado norte-americano, a informações sigilosas, que são utilizadas para atacar e processar judicialmente a Petrobrás e outras empresas brasileiras. Como podemos nominar esse tipo de atitude? Como podemos chamar também a prisão do Vice-almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, principal responsável pela conquista da independência na tecnologia do ciclo de combustível, que colocou o Brasil em posição de destaque na matéria, no mundo?

Não foi por acaso que na preparação do golpe, nos últimos anos, foi estimulado no povo brasileiro o complexo de vira-latas e se depreciou de forma sistemática tudo que poderia significar orgulho pelo País ou amor pela pátria. A campanha foi tão eficiente que idiotas saíram nas manifestações pró impeachment vestidos com as cores ou enrolados na bandeira dos EUA. Somente um processo sofisticado de manipulação da população poderia possibilitar o apoio a uma operação entreguista como a Lava Jato, pensada para quebrar a Petrobrás e o seu entorno, que gerou R$ 140 bilhões em prejuízo para a economia, provocando a demissão de milhares de trabalhadores, liquidando com dezenas de projetos na área de energia, indústria naval, infraestrutura e defesa. Recentemente, membros do Ministério Público Federal vieram a público para colocar sob suspeição o programa de construção de 36 caças estratégicos com a Suécia, colocando em dúvida a lisura de um ex-presidente da República e dos militares que participaram do negócio.
O golpe e o entreguismo estão só no começo. No apagar das luzes de 2016, o presidente golpista determinou à Comissão Aeronáutica Brasileira na Europa (CABE) a contratação, com urgência, de serviços de sensoriamento remoto por satélite. O custo de importação do equipamento está estimado em cerca de R$ 300 milhões. Segundo informações da imprensa, os membros da CABE estranharam a ordem, visto que este tipo de serviço para as Forças Armadas, só pode ser realizado por empresas nacionais ou constituídas sob as leis brasileiras, com sede e administração no País. Salvo raras exceções.
A ordem, que partiu da Casa Civil, tem graves implicações também no campo da soberania e segurança nacional. Segundo informações, a divisão de licitações e contratos da Aeronáutica classificou como ilegal a determinação, visto que esse tipo de fornecimento tem que ser feito por empresas brasileiras, inscritas no Ministério da Defesa. Os oficiais da Força Aérea, segundo os jornais, estão intrigados com o pedido da Presidência da República, que está se metendo diretamente nesse tipo de assunto, e atropelando regras que, dentre outras coisas, exigem a presença de empresas nacionais no processo. O que pode explicar essa entrega voluntária da vigilância do território brasileiro a empresas estrangeiras, senão entreguismo e subserviência? O que representa, do ponto de vista da segurança e soberania, buscar apoios em outros países, se empresas nacionais sabidamente têm condições de fornecer com excelência esse tipo de serviço? É que este não é um golpe qualquer. A agressão imperialista que o Brasil está sofrendo pode se comparar às guerras contra o Iraque e a Líbia, as técnicas de desestabilização utilizadas são semelhantes.

José Alvaro de Lima Cardoso, economista.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Clube de Engenharia decreta a “morte da Engenharia Brasileira”


prosub
“A Engenharia Brasileira está morta. Será cremada no altar da Jurisprudência da Destruição, do entreguismo e da ortodoxia econômica. Suas cinzas serão sepultadas em hora e local a serem anunciados no decorrer deste ano de 2017.”
A “nota fúnebre” foi publicada hoje pelo Clube de Engenharia, entidade que reúne os profissionais e o melhor do pensamento estratégico do setor há nada menos que 136 anos e é a mais antiga sociedade de engenheiros da América Latina.
Num extenso artigo, o Clube diz que “não existem nações que tenham crescido econômica e geopoliticamente sabotando, inviabilizando, destruindo, execrando, ensinando seu povo a desprezar, odiar e demonizar essa área, seus técnicos, trabalhadores, suas empresas, projetos, líderes e empresários, como o Brasil está fazendo agora”.
Empresas e grupos que estão sendo destruídos, agora, pelo ódio, a pressão e a calúnia, como se tivessem sido atingidos por uma devastadora bomba de nêutrons.
O artigo aponta como  efeito da aventura judicial, que confunde empresas com pessoas fisicas, “R$ 140 bilhões em prejuízo (à economia) , a demissão de milhares de trabalhadores, a interrupção de dezenas de projetos na área de energia, indústria naval, infraestrutura e defesa, a quebra de milhares de acionistas, investidores e fornecedores”.
A engenharia nacional está perecendo. Foi ferida de morte por um sistema judiciário que pretende condenar, a priori, qualquer contato entre empresas privadas e o setor público, e desenvolveu uma Jurisprudência da Destruição de caráter descaradamente político, que não concebe punir corruptos sem destruir grandes empresas, desempregar milhares de pais de família, interromper e destroçar dezenas de projetos estratégicos.
Um sistema judiciário que acredita que deve punir, implacável e estupidamente, não apenas as pessoas físicas, mas também as jurídicas, não interessando se esses grupos possuem tecnologia e conhecimento estratégicos, desenvolvidos ao longo de anos de experiência e aprendizado, se estão envolvidos em projetos vitais para o desenvolvimento e a segurança nacional, se deles dependem, para sobreviver, milhões de brasileiros.
O artigo diz ainda que “as nações mais poderosas do mundo” não apenas fortalecem “sua própria engenharia e suas maiores empresas”, mas se dedicam, também a ” sabotar as empresas e a engenharia de outros países, usando desculpas de diferentes matizes, que são repetidas e multiplicadas pela mídia sabuja e babosa desses mesmos lugares”.
Não é outra coisa o que os Estados Unidos fazem por meio de órgãos como o Departamento de Justiça e de iniciativas como o próprioForeign Corrupt Practices Act, sob o manto do combate à corrupção e da proteção da concorrência.
Como se diz no futebol, não tem mais time bobo. Ou tem, nestas bandas aqui.
O manifesto do Clube de Engenharia – que você pode ler aqui, na íntegra – aponta como “desastrosa”   a antecipação “suicida” pelo BNDES – em plena recessão – do pagamento de R$ 100 bilhões ao Tesouro: um dinheiro que poderia ser imediatamente aplicado em [obras de]infraestrutura, vai em troca de uma insignificante, irrelevante, pouco mais que simbólica redução de 1% na dívida pública.
E conclui, tristemente: “A engenharia brasileira faleceu, com seus escritórios de detalhamento de projetos, suas fábricas de bens de capital, seus estaleiros de montagem de navios e plataformas de petróleo fechados, suas linhas de crédito encarecidas ou cortadas, seus ativos vendidos na bacia das almas e seus canteiros de obras abandonados.  E o seu sepultamento está marcado para algum momento de 2017.”

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Marilena Chauí: a operação Lava Jato é o prelúdio da grande sinfonia de destruição da soberania brasileira para o século 21 e 22

Marilena Chauí: a operação Lava Jato é o prelúdio da grande sinfonia de destruição da soberania brasileira para o século 21 e 22: O depoimento da filósofa Marilena Chauí foi gravado em julho desse ano. Nocaute ainda nem estava no ar. Porém seu conteúdo continua muito atual. Entenda quais são os interesses por trás da operação Lava Jato.

As razões de um assassinato



Pepe Escobar

STRINGERVamos logo ao que interessa: Ancara 2016 não é Sarajevo 1914. Não é prelúdio da 3ª Guerra Mundial. Quem tenha urdido o assassinato do embaixador russo na Turquia Andrei Karlov – diplomata calmo, educado, contido, da velha escola russa – pode esperar revide de altíssima octanagem.

O assassino Mevlut Mert Altintas, graduado da Academia de Polícia, 22 anos, recebeu pena de suspensão da Polícia Nacional Turca por suspeita de laços com a Organização Terrorista Fethullahista [ing. Fethullahist Terrorist Organization (FETO)] depois do fracassado putsch de 15 de julho contra Erdogan, mas retornou ao serviço em novembro.

Não é segredo que os gulenistas estão pesadamente infiltrados dentro da Polícia Nacional Turca; assim sendo, um específico efeito do ataque será ataque ainda mais furioso e incansável, de Erdogan/AKP contra a rede de Gulen. A investigação turca terá de se concentrar na falha (gigantesca) de segurança naquele prédio do moderno centro de artes de Ancara, – mas também terá de alcançar outros muitos pontos. A evidência de que o ministro do Interior turco Suleyman Soylu só se manifestou, em frases tensas, mais de três horas depois do evento mais preocupa que tranquiliza.

O assassino, vestido num terno preto com gravata, gritou slogans sobre vingança "por Alepo" – incluído o indefectível "Allahu Akbar" – em língua turca e em árabe, coisa que pode estabelecer alguma conexão com a retórica de um grupo islamista, mas não é prova conclusiva.

O momento do crime é crucialmente importante. Aconteceu apenas um dia antes da reunião dos ministros de Relações Exteriores de Rússia, Turquia e Irã, em Moscou, para discussão estratégica sobre a Síria. Já estavam em contato próximo há várias semanas, prontos para firmar um amplo acordo sobre Alepo – e além de Alepo.

E isso exatamente depois do acordo crucial, recentemente assinado entre Pútin-Erdogan, que implica nada menos que milhares de "rebeldes moderados" sob comando da Turquia serem autorizados a safar-se por um "corredor" para fora de Alepo. Ancara estava perfeitamente informada sobre esse desenvolvimento. Só esse detalhe basta para eliminar a possibilidade de ataque provocado por Ancara sob falsa bandeira.

O presidente Pútin, por sua vez, disse muito claramente que quer saber "quem dirigiu o assassino". Pode-se interpretar como alguma espécie de código sutil para dizer que a inteligência russa já sabe quem fez o que.

O Grande Quadro


No front bilateral, Moscou e Ancara trabalham atualmente juntas e muito próximas no campo do contraterrorismo. O ministro da Defesa da Turquia foi convidado a visitar a Rússia para negociações do sistema de defesa antiaérea. O comércio biliteral está novamente florescendo, inclusive com a criação de um fundo conjunto de investimentos. No sempre importante front da energia, o gasoduto Ramo Turco, apesar da obsessão no governo Obama para fazê-lo desandar completamente, foi consolidado numa lei do estado turco, em Ancara, no início de dezembro corrente.

Os atlanticistas estão em pânico, agora que Moscou, Ancara e Teerã estão trabalhando em tempo integral para traçar as linhas de um futuro para a Síria depois da Batalha de Alepo e exclusão e vergonhosa expulsão de lá, de todo o combo Otan-CCG (Conselho de Cooperação do Golfo).

Sob esse contexto é que de deve interpretar a recente noticiada captura pelas Forças Especiais Sírias em Alepo, de um punhado de agentes de Otan-CCG – operando na Síria camuflados" dentro da "coalizão" que os EUA lideram pela retaguarda.

Fares Shahabi, deputado do Parlamento sírio, presidente da Câmara de Comércio em Alepo, publicou os nomes dos agentes presos. A maioria são sauditas; há um qatari; a presença de um marroquino e um jordaniano explica-se porque Marrocos e Jordânia são membros "não oficiais" do CCG. Mais um turco, um norte-americano (David Scott Winer) e um israelense. Apenas dois agentes da Otan, mas a conexão Otan-CCG está super estabelecida. Se essa informação procede – ainda há um grande "se" – esses todos podem bem ser a coalizão de pessoal militar e comandantes de campo que antes dava aconselhamento aos "rebeldes moderados" e agora está convertida em formidável moeda de troca nas mãos de Damasco.

Ambos, Otan e CCG não disseram uma palavra; nem negações do tipo "não nego que…" apareceram até agora. Pode significar algum acordo clandestino já firmado para a saída de prisioneiros de alto valor, o que dá ainda mais peso à posição de Damasco.

Foi o presidente Pútin que realmente estabeleceu um eixo de fato Rússia-Irã-Turquia para lidar com fatos em campo na Síria – ação paralela ao embuste e solução-zero dos "trabalhos" em andamento na ONU em Genebra. Moscou enfatiza diplomaticamente que o trabalho do eixo complementa o que se faz em Genebra. De fato, o russo é o único trabalho baseado na vida real. Espera-se que tudo esteja assinado, com parâmetros definitivos bem fixados em campo ainda antes de Donald Trump entrar na Casa Branca.

Resumidamente: o projeto combo de mudança de regime, cinco anos (e ainda não terminou), que custou à Otan-CCG multibilhões de dólares, para expulsar Assad da Síria… fracassou miseravelmente. Erdogan, o matreiro, parece que afinal aprendeu sua lição de realpolitik. Mesmo assim, foram abertas no front atlanticista miríades de avenidas para canalizar o ressentimento geopolítico.

O grande quadro não poderia ser mais absolutamente insuportável para os atlanticistas neoliberais/neoconservadores. Lentamente, mas sem parar de andar, Ancara vai tomando o rumo da Eurásia. Bye bye União Europeia e, talvez, Otan; bem-vindas as Novas Rotas da Seda, também chamadas Projeto Um Cinturão, uma Estrada [ing. One Belt, One Road (OBOR)], puxado pela China; bem-vinda a União Econômica Eurasiana [Eurasia Economic Union (EEU)] puxada pela Rússia; bem-vinda a Organização de Cooperação de Xangai [Shanghai Cooperation Organization (SCO)]; a parceria estratégica Rússia-China; e a Turquia como nodo chave de entroncamento na integração da Eurásia.

Para que tudo isso aconteça, Erdogan concluiu que Ancara tem de estar a bordo da estratégia de longo prazo de Rússia-China-Irã para pacificar e reconstruir a Síria e fazer dela um nodo chave também das Novas Rotas da Seda. Entre isso e uma "aliança" de interesses em conflito, com Catar, Arábia Saudita e EUA, a escolha não é difícil.

Mas que ninguém se engane. Ainda haverá sangue.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Não são tenentes, são bacharéis


Nilson Lage
Leio articulistas de esquerda fazendo comparações entre o atual movimento de bacharéis – juízes e procuradores – com o tenentismo de há um século.
O paralelo é atraente, mas enganoso.
A começar pelo fato de que nada mais antibacharelesco que aquele movimento.
O tenentismo, evoluindo nos quartéis em oposição ao civilismo e suas distorções oligárquicas, foi um movimento complexo, do qual se originaram as vertentes do comunismo de Prestes, do trabalhismo de Vargas e do autoritarismo que, após a breve fase de namoro com o fascismo, se fundiria com a modernização conservadora instigada pelos Estados Unidos no pós-guerra.
Aliás, Filinto Muller e Juarez Távora foram terminar na falecida Arena.
Objetivamente, o tenentismo era contra o estado de coisas da República Velha, mas propunha soluções alternativas e não pretendia, ao ser lançado, a tomada do poder pela corporação militar.
Hoje, juízes, procuradores e policiais nada têm a propor senão a destruição do que está feito, com total descritério.
Sua luta não tem grandeza, porque motivada por poder e dinheiro. Aliás, ao contrário da dos tenentes, sequer correm riscos, porque indemissíveis e com poder de polícia.
O tenentismo foi, na sua origem, movimento nacional que expressou, do ponto de vista militar, o sentimento difuso da inteligência brasileira da época, que pretendia promover o crescimento econômico, a integração nacional e a redução das desigualdades.
Nada parecido com a campanha dos bacharéis, evidentemente inspirada e instrumentada por potência estrangeira, ignorante da economia e alheia aos problemas sociais.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Lula não precisa esconder patrimônio que teria renda para comprar

Eduardo Guimarães

Buzz This
Post to Google Buzz
Bookmark this on Delicious
Bookmark this on Digg
Share on FriendFeed
Share on Facebook
Share on LinkedIn

lula-imoveis

Deu-me engulhos a mais recente coluna dominical do jornalista Elio Gaspari na Folha de São Paulo deste domingão, apesar de ele ter divulgado uma teoria que faz todo sentido.
Gaspari é daquele tipo de jornalista que conta uma parte maior da verdade para desarmar o leitor para a distorção dos fatos que fará logo em seguida.
A coluna já inicia com uma afirmação repugnante, simplista, bem ao gosto de qualquer energúmeno fã da ditadura militar. Leia o primeiro parágrafo:
“Lula pode ser candidato em 2018 (ou em 2017), mas namora-se a ideia da sua inelegibilidade. Jogo arriscado, porque o papel que ele desempenha com maior brilho é o de coitadinho perseguido pela elite(…)”
É preciso estômago. Papel de coitadinho? Vamos ver se é isso mesmo. Por enquanto, fiquemos com o fato de que Gaspari está certo quanto ao plano de anular Lula para ele não poder disputar uma eleição, como se não fosse possível ele influenciar na eleição mesmo tendo sido inabilitado pelo cárcere ou por leis tornadas “adequadas” ao seu caso.
E Gaspari continua:
“Os depoimentos de empresários que compraram políticos igualaram os prontuários de notáveis, consolidando a ideia de que são todos farinha do mesmo saco. O PSDB, com sua vestes angelicais e processos que claudicam na Justiça (como o do cartel das obras do metrô e das ferrovias) paga o preço de ser parte do atual governo”.
Outra dose de sinceridade, tudo para compensar a história de que Lula se dá bem no papel de “coitadinho”. Aliás, a tese de Gaspari nada mais é do que uma versão da tese de outro colunista da Folha, Reinaldo Azevedo. Ambos acham que os abusos reiterados da imprensa e da Lava Jato contra o petista levam água para o seu moinho. E estão certos.
E, nesse contexto, a condução coercitiva do pastor-picareta Silas Malafaia na semana passada trabalhou no sentido de mostrar uma espécie de “justiça divina” agindo em favor de Lula
Mas a minha parte favorita da coluna em questão é a seguinte:
“(…) Com a entrada do PMDB na ciranda da Lava Jato e com o mau desempenho da economia, Lula cimentou sua posição de coitadinho. Num primeiro momento ele poderia ser condenado pelas malfeitorias em que se meteu. Aos poucos, fica a impressão de que se busca a condenação para obter a inelegibilidade, uma versão elegante do banimento. Na Argentina, com Juan Perón, deu no que deu No Brasil, o banimento de Leonel Brizola por 15 anos terminou com sua eleição para o governo do Rio de Janeiro em 1982. Por puro exercício do raciocínio, admita-se que a eleição será em 2018 e Lula estará inelegível. Como a jararaca não terá morrido, poderá apoiar uma nova versão de seus postes (…)”.
É bem por aí. Gaspari é inteligente, assim como Azevedo. Já entendeu que o massacre de Lula é tão ousado, tão descarado, tão parcial, tão injusto que vai revoltando cada vez mais gente.
Esse pessoal vive agora se achando expert em política. Temer chegou ao ponto de chamar aquele bando de tarados do MBL para lhe dar “consultoria política”.
Essa gente é tosca. Está surfando no desespero da sociedade por de repente começar a perder tudo de bom que ganhou do PT ao longo de 11 anos do seu governo de 13. Mas vai encontrar seu pagamento logo ali adiante. Eles não perdem por esperar…
Mas esse texto é sobre as acusações a Lula. Já notaram que ele é acusado não por patrimônio suspeito que tem, como é o caso de um corrupto clássico como Eduardo Cunha, por exemplo, mas por patrimônio que não tem, mas dizem ser dele?
Até há uma semana, Lula era acusado de ser o “chefe supremo” de um esquema criminoso por ser o suposto proprietário oculto de um apartamento no Guarujá e um sítio em Atibaia (?!!).
Depois, como realmente parece ser muito pouco patrimônio para alguém ocultar, arrumaram um terreninho ao lado do Instituto Lula e um apartamento ao lado daquele no qual reside.
Poucos se deram conta dessa “coincidência”: os dois novos supostos imóveis ocultos de Lula são “grudados” fisicamente a imóveis que ele já possui. Algozes do ex-presidente pretendem substituir a lógica pela proximidade física.
No caso do “tríplex” e do sítio em Atibaia, que já estão aí há muito tempo sem jamais ter surgido uma mísera prova de que pertencem ao ex-presidente, somados os imóveis chegam a cerca de dois milhões de reais – pouco mais, pouco menos.
Sim, é isso mesmo: DOIS MILHÕES DE REAIS são quanto custam o tríplex e o sítio em Atibia que constituiriam prova de que Lula seria o “líder supremo” de uma poderosa “organização criminosa” que roubou CENTENAS DE BILHÕES DE REAIS.
O mais incrível é que a renda de Lula seria mais do que suficiente para comprar esses e muitos outros imóveis. Além de sua aposentadoria como presidente ser mais de trinta mil reais, ele tem outras rendas absolutamente legais, como aposentadoria por ser vítima da ditadura etc.
Além disso, alguém consegue dizer, sem ruborizar, que um ex-presidente que deixou o cargo da então 6ª maior economia do mundo com 80% de aprovação não conseguiria dar palestras bem-remuneradas pelo mundo afora?
Vão se catar!
Fernando Henrique Cardoso entregou a economia brasileira com cerca de 13% de desemprego e outro tanto de inflação, sem reservas cambiais e afundado em impopularidade e ninguém questionou as palestras que passou a dar após sair do cargo; já Lula, que deixou o país sem inflação e desemprego e com quase 400 bilhões de reservas, montado em 80% de popularidade, não poderia ser remunerado para explicar o êxito de seu governo.
Mais uma vez, vão se catar!
Só a aposentadoria de Lula como presidente já seria suficiente para comprar os imóveis em questão.
O tríplex custa cerca de um milhão e duzentos mil reais, o sítio em Atibaia custa cerca de oitocentos mil reais. Uma pessoa com renda oficial que pode chegar a sessenta ou setenta mil reais, ou mais, não pode comprar dois imóveis que somados custariam uns dois milhões?
Para que o ex-presidente arriscaria destruir sua biografia por patrimônio tão pequeno? Como um homem que teve inteligência para sair de onde saiu e chegar aonde chegou seria tão burro a ponto de arriscar tanto por tão pouco?
A direita não quer saber. Acha que consegue vender qualquer tese, hoje em dia. Está errada de novo. Conseguiu porque Dilma se reelegeu. Se não tivesse sido reeleita, estaria muito forte e os tucanos (Aécio) é que estariam em maus lençóis.
Teria sido muito mais inteligente deixarem Dilma sangrando até 2018 e ganharem a eleição presidencial limpamente. Porém, a sede de poder falou mais alto. E a estupidez dos gorilas de direita fez o resto do serviço.
Por tudo isso, acreditem: Lula, preso ou morto, vira mártir; solto, vira presidente.
Se não puder se eleger, sua mera trajetória de vida e seu governo de oito anos vão fazer o povo votar em quem ele indicar ou em quem seus herdeiros políticos indicarem.
Quem viver, verá.